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O Dia da Faxina
Capítulo 7 de 14
Episódio 7
✍️ Geraldo Medeiros Jr. ·📅 03 Mar. 2026 ·👁 0 leituras

Meses se passaram, mas a ansiedade não diminuía. Atílio acordava todos os dias com a expectativa de que o complexo carcerário já estivesse no fundo de uma cratera. Apesar de mal se aguentar, sabia esconder muito bem o desejo de destruição.

Sempre que só, especialmente em casa, assumia uma segunda personalidade, tão forte, a ponto de confrontar e suplantar a pequena porção lúcida. Vez ou outra delirava, sonhos e pesadelos que o faziam perder o parâmetro da realidade.

“Por quê? É crime matar quem não tem mais jeito? Muito pelo contrário, é um favor que se faz à sociedade. Aliás, todo mundo mata. Mata-se para viver ou simplesmente para se divertir. Matar é humano. Mas que se mate por um propósito. Até por religião se mata! O inconcebível é tirar a vida de quem se ama. Isso é imperdoável. Nem Deus deveria fazer uma coisa dessas. O problema é que Ele não está nem aí. Mata mesmo. Ou será que usa alguém para fazê-lo? Se sim, eu poderia ser um instrumento Dele. Quem sabe, às vezes, Ele usa alguém como assistente... Alguém precisa fazer o serviço sujo.”

Tais pensamentos fluíam incessantemente. Cenas da morte de Míriam não lhe saíam da cabeça. O coração não se aquietava. Todo e qualquer caso de assassinato fazia brotar nele uma revolta quase incontrolável. Corrosiva como ácido. Procurava, então, isolar-se. E na reclusão, conjecturava em voz alta:

“Os que matam para proteger os outros são cobertos de honrarias. Acredito, sem dúvidas, de que serei muito respeitado. Poderei até receber títulos importantes. Eliminar a vida de quem não presta é um serviço à humanidade. Deveria ganhar o prêmio Nobel por isso”

Um dia, enquanto pensava e as emoções se exaltavam, Atílio entrou numa espécie de crise de ansiedade, e delirou. Bem diante de seus olhos, um cenário surgiu. Parecia um teatro. Abandonado e escuro, somente uma fraca lamparina iluminava o palco. Atílio olhou para um lado, e não viu ninguém sentado ao longo da fileira de cadeiras onde se encontrava. O mesmo ao olhar para o outro lado. Ninguém à frente também. Contudo, sentiu uma presença atrás dele. Receou olhar. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Mas o instinto de autopreservação venceu o medo. Ao virar-se de súbito, deu de cara com Míriam. Estava machucada. Ele se levantou, segurou-a pelos ombros e disse em voz alta e ríspida:

- Onde ele está? Que desgraçado fez isso com você? Quem a trouxe aqui? - Nenhuma resposta. Ela ergueu a mão direita e ainda com o olhar fixado em outra realidade disse:

- Minha cabeça dói. Quero ser livre.

Nesse instante, Atílio notou que as mãos da esposa eram feitas de uma bruma muito sutil. E dissolveu-se no ar. Atílio voltou a si, com a ideia fixa de que Míriam sofria, pois nada havia acontecido até então. Ela, assim como ele, clamava por vingança. Contudo, não havia outra coisa a fazer senão esperar.

E desta forma, a vida de Atílio seguia: De casa para o trabalho, e vice-versa. E cada vez menos relacionava-se com as pessoas. Contudo, os delírios to aram-se recorrentes.

Certo dia, ao ir para casa a pé, Atílio encontrou Vinícius:

- Olha quem eu tenho o prazer de encontrar! - Disse Vinícius, cheio de boas vindas inapropriadas e de braços abertos para piorar. Atílio não esboçou sequer meio sorriso e permaneceu com as mãos nos bolsos:

- Ah, é você. - Foi o máximo que sua boca conseguiu articular.

- Mesmo que não tenha perguntado digo que estou bem. Bastante atarefado. Esta cidade...

- Imagino que esteja bastante ocupado mesmo. A bandidagem prolifera que nem ratos, não é mesmo?

- É verdade. Quer um café?

- Com um meneio positivo, quase imperceptível, concordou. Dirigiram-se a um café próximo.

- Ô, amigo, um café pra nós dois aqui.

- O atendente, já familiarizado com os pedidos do coronel, incluiu a costumeira torta de limão.Traz uma para o meu amigo também. - Completou Vinícius.

- Não, não. Obrigado. Só o café.

- Só o café, então!

Houve uma pequena latência na conversa entre os dois, só quebrada pelo atendente ao trazer o pedido.

- Rapaz, essa torta de limão é a melhor da cidade. Tem certeza que não quer?

- Não. Aproveite. Bem, preciso ir...

- Não, fique. E aí? O que tem feito?

- Só trabalho. Vários projetos...

- Esta cidade não para de crescer. Prédios aparecem de repente que nem capim. Aonde isso vai dar, hein? Vocês tinham que inventar um jeito de humanizar o centro. Quem sabe mais verde, mais parques.

- Mais parques! Pra quê? Pra virar um antro de viciados? Um ponto de encontro pra bandidos?

- Não exatamente. Seria um jeito de atrair a população boa para cá. Além disso, um bom policiamento...

- Era só o que faltava. Você falar em bom policiamento. Somos a minoria, coronel. Não se deu conta disso ainda?

- Acho que deveria provar essa torta. Pelo menos adoçaria suas palavras.

- Prefiro ser mais azedo do que o próprio limão do qual ela é feita. Pelo menos falo a verdade. Só quem sentiu o problema na pele sabe o que é.

- Vai ficar assim até quando?

- Até o dia que alguém fizer alguma coisa pra parar esses caras. Vocês não enxergam que estamos cada vez mais acuados?

- Claro que enxergamos, Atílio. E uma coisa eu lhe digo: Todos os esforços são feitos para conter a violência, mas...

- Mas vocês não dão conta. Gente de todas as classes sociais está sob a ameaça de uma força muito bem organizada. Alguém tinha que aterrorizá-los da mesma forma como fazem conosco.

- Não é assim que funciona. Tudo deve ser estrategicamente planejado. Por isso é que existe o centro de inteligência da polícia.

- Inteligência? Huh!

- Vamos mudar de assunto, Atílio.

- É assim que as coisas funcionam nesse país. Quando não se sabe o que fazer, simplesmente muda-se o assunto, e tudo dá na mesma. Quer saber? A sujeira da política é como uma infiltração de água. Quando descoberta, já é tarde demais. - Atílio se levantou, tirou o dinheiro do bolso e lançou sobre o balcão. Deu as costas deixando Vinícius bastante constrangido.

Ao chegar à casa, isso por volta das oito da noite, a primeira coisa que fez foi tirar os sapatos. Em seguida, jogou-se na cama. Desligou a luz e pensou: “A escuridão infelizmente não é a morte, é só um tipo de desligamento dessa realidade sacal na qual eu vivo.” - E adormeceu. Por volta das cinco horas da manhã, nem havia amanhecido ainda, o celular tocou. Atílio vasculhou o bolso esquerdo da calça, tirou o aparelho e deu uma olhada para ver quem poderia ser àquela hora. Era Lívio. Imediatamente atendeu:

- Lívio?

- Venha para a construtora urgente.

- Algum problema?

- Eu te falo assim que chegar.

Sem se despedir Lívio desligou. Atílio saltou da cama, nem trocou de roupa. Apenas lavou o rosto e saiu apressado. Ao chegar, Lívio e Cássio já o esperavam na recepção.

- Para a sala de reunião. - Disse Lívio com uma expressão preocupada.

Mas o que está acontecendo?

- Daqui a pouco saberá – Disse Cássio.

Já na sala, os três se sentaram ao redor da mesa. Lívio tamborilava os dedos impacientemente e disse:

- Recebi uma ligação há algumas horas da engenharia da prefeitura. Eles foram alertados pelos bombeiros sobre um acidente gigantesco que aconteceu. Vocês não vão acreditar. Ligue a TV.

O noticiário apresentava imagens que mais pareciam ser cenas de um bombardeio. O jo alista, bastante afetado, narrava o que via em tempo real:

“Primeiro, ouviu-se um barulho ensurdecedor que foi ouvido a quilômetros de distância. Depois levantou uma quantidade gigantesca de poeira. Houve um desabamento por volta das três e trinta desta manhã. Uma cratera se abriu e engoliu parte do presídio do Carandiru, zona norte de São Paulo. Tudo aconteceu em segundos. Bombeiros isolaram a área. A prefeitura foi contatada e o responsável alega que a demolição estava prevista para essa noite. Contudo, ninguém foi avisado sobre esta suposta demolição. A prefeitura alega que os prisioneiros foram levados para outros presídios do estado e, por medida de segurança, não poderiam ter divulgado a ação. O estranho é que a cratera é enorme, diferente dos procedimentos utilizados nas implosões de prédios. A prefeitura justifica o método com a alegação de que se trata de uma manobra segura e de baixo custo, cujo resultado apresentado mostrou-se eficiente. A cratera engoliu parte da avenida principal e o trânsito precisou ser desviado. Parentes dos detentos começam a se aglomerar para saber o destino dado a eles. O secretário de segurança afirma que logo divulgará uma lista e o local da transferência de cada um. Moradores da região estão assustados. Coronel Vinícius está no local e disse que a operação de transferência foi um sucesso. Contou com o apoio da tropa de choque.”

- Por favor, pode desligar, sim? Pediu Lívio a coçar impacientemente a testa.

- Demolição. - Disse Atílio.

- Demolição? Isso é o caos! Eles mentem. - Interveio Cássio.

- Esse tipo de fatalidade pode acontecer. Já se sabe a causa? Perguntou Atílio com o cenho iluminado.

- Não. Ainda não. Mas a prefeitura resolveu mentir para se defender. São centenas de mortos. Como farão para ocultarem os corpos? - Indagou Lívio que andava de um lado para o outro.

- O problema não é nosso. Estive lá para vistoriar. Até pedi para a prefeitura trocar parte da tubulação. - Disse Atílio.

- Eles crucificarão alguém. - Ressaltou Cássio.

- Não há ninguém para ser crucificado. A Casa de Detenção foi construída de forma irregular pelo estado. Portanto, a culpa é do gove o e não nossa. Tanto é que a adutora não foi especificada na planta. Cumprimos com a nossa parte de verificar possíveis infiltrações.

- Mas o que provocou a erosão? Você esteve lá, Atílio. Não verificou nada de extraordinário?

- Nada. Apenas tubulações velhas e a bendita adutora. Provavelmente ela rompeu. Considerando o tamanho da cratera... o certo seria irmos até lá para verificar.

Cássio ergueu a cabeça e deslizou o dedo indicador pela testa.

- Resta esperar o que os peritos dirão. Por enquanto, esperaremos até obtermos o sinal verde para prosseguir com o projeto da nova prefeitura. - Disse Atílio com discreto sorriso.

- Não se preocupa com todas aquelas vidas perdidas? - Indagou Lívio.

- Algum dia eles se preocuparam com as nossas? - Retrucou Atílio.

Depois de deixarem a sala, Atílio ligou novamente a TV. Uma nova notícia de última hora, mostrou que a parte restante do complexo penitenciário também tinha sido engolido pela cratera. Enquanto o repórter noticiava a suposta demolição do complexo penitenciário, ao fundo pode se ouvir um ruidoso impacto final da estrutura de um dos pavilhões. O interessante foi que ninguém falava em mortes. Teria a imprensa sido comprada? Vinícius mais uma vez foi entrevistado. Garantiu que estava tudo bem e que a demolição fora um sucesso.

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