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Anti-Herói
Capítulo 5 de 15
Episódio 5
✍️ Cristina Ravela ·📅 08 Apr. 2020 ·👁 0 leituras

ATO DE ABERTURA

NILO (V.O) Cada um vive seu próprio pesadelo. Alguns despertam; outros, não.

FADE IN

CENA 1 RUA DA CIDADE – NOITE

Numa poça d’água refletindo a imagem dos prédios. Um par de coturnos masculinos pisa na poça e segue o caminho pela calçada.

CAM SOBE, percorrendo algumas janelas: um homem fumando; a sombra de uma mulher se despindo; uma garota se segura na grade, gemendo baixo, enquanto um homão a traça por trás. Nada de extraordinário. CAM BUSCA outra janela e antes de entrar /

VOZ MASCULINA NÃO! Eu não tenho porque perder nada! Eu não vou perder nada! SAI DA MINHA VIDA! SAI!

CENA 2 INT. - APARTAMENTO – NOITE

A voz vem de uma TV exibindo o longa A Visitante, no qual Rodrigo surta numa lan-house. Uma garota sentada no sofá, comendo pipoca, assiste, atenta.

CAM ATRAVESSA o teto e invade outro APARTAMENTO. Flagra peças de roupas masculinas espalhadas pelo chão. Gemidos intensos de prazer. Um rapaz magro, de uns 25 anos, está de quatro na cama. Seu corpo se movimenta rápido dando a entender que está por cima de alguém.

RAPAZ #1 Aaah, isso...Que delícia!

É quando ele olha para trás e beija um homem fortão, de uns 50 anos. Ele segura sua cintura, enquanto executa os movimentos rápidos. Os dois delirando de prazer. Grito de tesão.

O passivo cai na cama, exausto; o ativo sai de cima, viril.

HOMEM #1 (ofegante) Deu por hoje.

CENA 3 EXT. - APARTAMENTO / CORREDOR – NOITE

O casal da cena anterior aproxima-se do elevador. O rapaz entra, mas fica na porta.

RAPAZ #1 Amanhã?

HOMEM #1 Você quer me matar, garoto? (ambos riem) Eu ligo pra marcar alguma coisa.

A luz se apaga repentinamente. Depois ela retorna. Volta a apagar.

HOMEM #1 Mas que merda de lâmpada presencial. Não tão percebendo eu aqui não?

O rapaz ri, entra no elevador, mas quando vai fechar a porta, vê o namorado ser AGARRADO pelo pescoço por um homem#2 (moreno, parrudo, 40 anos). O homem#1 se debate; o rapaz tenta reagir, mas a porta do elevador já fechou.

RAPAZ#1 SOCORRO! SOCORRO! ALGUÉM AJUDA!

O sujeito misterioso rasga a jugular do seu alvo, espirrando sangue na janela do elevador. O rapaz horrorizado; o namorado olhando-o pela última vez. A segunda porta se fecha.

CENA 4 EXT. - PRÉDIO - NOITE

O rosto alucinado do bandido da cena anterior surge na escuridão. Suas mãos sujas de sangue. O mesmo par de coturnos da CENA 1 sumindo da tela.

FADE OUT

FADE IN

CENA 5 INT. - LUGAR DESCONHECIDO - NOITE

O homem da cena anterior acorda. O ambiente se abre, revelando um cenário fechado, com apenas uma janela no alto, uma cama, e uma lâmpada suspensa. Som de alguém BATENDO PALMAS.

VINNIE (O.S) Você se saiu muito bem. Passou no teste.

Vinnie aparece ao lado de Raul (morenão, alto, 43 anos, mal encarado).

VINNIE E como eu te ajudei a eliminar o seu inimigo, agora chegou a sua vez de me ajudar. (sorri, sagaz) Eu quero a cabeça de Moni Vasco.

Raul assente, satisfeito. O homem#2 ainda tonto. Na forte expressão firme de Vinnie.

FADE OUT

FIM DO ATO DE ABERTURA

EPISÓDIO 5

ACORDANDO DE UM SONHO

PRIMEIRO ATO

FADE IN

CENA 4 EXT. - PRAÇA XV – DIA

Um aglomerado de pessoas, afoitas, aguardando alguma coisa. CAM TRAVELLING percorre a direção de seus olhares, passando por entre a multidão, até alcançar um palanque.

Lá, estão um homem engravatado, de pouco mais de 40 anos (JAIME) segurando uma medalha, e quatro policiais. Ao seu lado, encontramos NILO, um pouco mais novo, emocionado, e RAÍZA (morena, 28 anos, cabelos longos e pretos).

Jaime coloca uma medalha no pescoço de Nilo.

JAIME Nilo Rodrigues, o herói de Lila Machado, enfim, é real. Ninguém duvidava, né?

APLAUSOS e RISOS. Nilo, já com a medalha no pescoço, admira o objeto, quando percebe que está manchado de sangue. Assim que volta seus olhos para a multidão, recebe um TAPA. Ferida na boca. Nilo se vê diante de um homem de 30 e poucos anos, bonito, de cavanhaque e usando sobretudo negro(CIPRIANO).

POVO (em uníssono) ASSASSINO! ASSASSINO!

CIPRIANO A humanidade nunca estará a salvo, porque o mal sempre acaba prevalecendo.

Do outro lado, surge Vince, sujo e com queimaduras.

VINCE Você é parte disso. De fato, tu não é um herói. Tu não é um herói. TU NÃO É UM HERÓI!

Nilo se dá conta de que está num cadafalso, ao lado de Cipriano e Vince, vitoriosos. Jaime e Raíza sumiram.

CIPRIANO Eu vou adorar vê-lo cair.

Ambos os vilões seguram Nilo de cada lado e ameaçam jogá-lo ao povo, ávido em recebê-lo. Nilo faz que não, desesperado, mas não tem jeito; no que Nilo é arremessado na multidão /

Nilo ACORDA em sua cama, suado e aflito. Percebe que sonhou. Quando mal se recupera /

LILA (O.S) Outro pesadelo, Nilo?

Nilo quase enfarta de susto. Não sabe nem o que dizer. Lila, sentada diante dele, observa.

FADE OUT

FADE IN

CENA 5 INT. - APTº DE NILO E LILA / COZINHA – DIA

Nilo preparando o café; retirando os pães de forma da torradeira; passando manteiga nos pães. Dispõe sobre uma bandeja, e quando se volta, dá com Lila, sentada, encarando-o.

LILA Há dias que você tem pesadelos, Nilo. São aqueles?

Nilo coloca a bandeja sobre a mesa. Senta. Não tem coragem de dizer.

LILA Eu vou mandar cancelar o filme /

NILO Eu não to pedindo isso /

LILA (por cima) Pago a quebra do contrato, mas não quero te ver atormentado assim (Nilo nem entende bem). Cê anda sonhando com a sua esposa, né?

Nilo hesita; não quer mentir, porém /

NILO Eu topei o filme. Eu sabia das consequências. Só tenho me sentido meio intoxicado com essa Novo Dia. Vou ficar bem, não precisa cancelar nada.

Lila toma o café, ambos trocam olhares estranhos. O celular dela toca. Lila verifica a mensagem e faz que nem crê.

LILA Olha isso, Roger acabou de enviar. O crítico da Novo Dia compara a história de Vince Lemos com a sua, e diz que se ele tivesse tido a sua sorte, eu poderia tê-lo feito ganhar as telas também. Idiota!

NILO Eu virei pauta pra semana inteira.(T) E sobre Valquíria? Precisamos continuar as investigações, não?

LILA Não posso negar que a história de Vince se assemelha a sua, e eu não quero te ver mais atormentado.

NILO O que quer dizer com isso?

LILA Acho que você precisa de férias.

Nilo vai pra trás. Aquela não era uma boa ideia. Não agora.

CENA 6 EXT. - BAIRRO VALQUÍRIA – DIA

SONOPLASTIA: Jorginho me empresta a 12 – MC Carol

Extensão do bairro. Corta para o morro. Mercadinho funcionando a mil por hora; os caras trocando informações nos becos, arma na cintura, cigarro na boca. Mulher levando filho pra escola. Bandido cumprimentando, educado.

CAM BUSCA uma casa no alto, só no tijolo, dois andares.

RAUL (O.S) Filho de uma égua!

CENA 7 INT. - CASA DE RAUL / SALA – DIA

FIM DA SONOPLASTIA

A fachada engana. O interior é bonito, sala nos trinks, TV grande; parece sala de rico.

Raul está à mesa, dando uma conferida em seu tablet, nervosão.

RAUL Quem esse crítico pensa que é pra falar assim do Nilo?

MULHER #1 (debocha) Crítico?

Uma bela mulher (negra, pele lisinha, jovem de 25 anos) surge com um pote de geleia.

RAUL Vou sentar o cacete nesse sujeito, Valdete. Nilo é muito melhor que aquele zé mané do Vince.

VALDETE Tu só sabe falar desse cara, Raul. Esquece essa merda!

Raul larga o tablet e segura firme no braço da garota.

RAUL Olha como tu fala dele, hen princesa.

VALDETE (encara, sem medo) Se ele fosse um artista, um pagodeiro responsa, vá lá. Mas ele é só um jornalista que ganhou umas medalhas do presidente, pow! Fica valorizando o cara, e eu?

Dengosa, dá um cheiro no pescoço do bandido. Raul gosta.

RAUL Tu não me atiça não, mulé. Tenho umas parada pra desenrolar aí.

VALDETE Aposto que é com o chefão misterioso (mordisca o queixo de Raul). Bem que tu podia me falar quem é, hen.

RAUL Te quero viva, mulé. Fica nessas curiosidades não.

Valdete sorri, sedutora. Tasca-lhe um beijão, ficam alí por instantes. Raul sossega.

RAUL To vazando, linda. Não me espere pro almoço.

Raul abre a porta e SAI. Valdete volta para a mesa, olhar desconfiado.

VALDETE Eu ainda descubro quem é o malandro. Ah, descubro...(ri).

CENA 8 EXT. - RUAS DA CIDADE – DIA

SONOPLASTIA: Heavens on Fire - Kiss

Takes da cidade, a Presidente Vargas, lotada; os caras vendendo balas, salgadinhos e refrigerantes; os ônibus cheios, pessoas transitando. Muito tumulto.

Corta para os arranha-céus até encontrar a fachada imponente do jornal Carioca News.

CENA 9 INT. - CARIOCA NEWS / SALA DE REDAÇÃO – DIA

FIM DA SONOPLASTIA

Roger, sentado, bebendo uma xícara de café. Pensamento longe, olhar vidrado ao léu, cara de bobo.

= = FLASHBACK = =

CENA EM QUE ROGER SALVA A VIDA DE MONI

Roger agarra Moni e ambos batem de contra um furgão, saindo da mira de Butuca. Olho no olho. Em Roger, admirado.

ROGER Você tá bem?

MONI (atordoada) O que você fez?

ROGER Tentaram te matar. Cê...cê tá bem mesmo?

MONI Aham...Preciso ir.

= = FIM DO FLASHBACK = =

LILA Roger? Roger!

Roger desperta com um sorrisinho idiota.

LILA Imagino que tá pensando em algo muito bom.

ROGER Sorry, amiga. Eu...(pensa) Há quanto tempo somos amigos mesmo?

LILA Desde a faculdade? E eu já te vi assim, mas...não desconcentrado no trabalho.

ROGER (animado) Menina, eu conheci um mulherão. De parar o trânsito. Acho que encontrei a garota certa pra mim.

LILA E como foi isso? Não me diga que pela internet?

ROGER O que você tem contra a internet? (Lila franze os olhos / Roger faz careta) Olha, foi pessoalmente, tá? Cê acredita que ela quase foi assassinada?

LILA Já começou assim? Essa garota pode ser perigosa, Roger.

ROGER Falou a garota que mora com um sobrevivente, né?

LILA Ok, ok! Mas enquanto vocês dois não se reencontram e se pegam, melhor é trabalhar. Preciso de você e do Nilo lá na Gávea. Houve um assassinato em um dos daqueles prédios.

ROGER Ok, mas...Você soube do crítico?

CENA 10 INT. - NOVO DIA / ESCRITÓRIO – DIA

Amora adentra aos risos, segurando seu tablet. Murilo e Paulinha logo atrás, caladíssimos.

AMORA Cês viram isso? “Onde estaria Vince Lemos agora se Lila Machado tivesse dado confiança para a sua triste história? Estampando manchetes? Virando herói literário? Dois loiros, padrão de beleza de uma sociedade hipócrita. O que difere um do outro? Talvez, Lila não goste de líderes comunitários...” (ri). Ela deve tá se mordendo agora.

PAULINHA Por que nos chamou, Amora?

Amora já contornando a mesa, deixa o tablet por alí.

AMORA Por quê? O papo tá maçante pra você, querida?

PAULINHA (sem graça) Não, é que você pediu uma nota sobre o fim da emissora UP…

AMORA Ah, claro, e não fez ainda por quê? (Paulinha e Murilo se entreolham) Era pra tá pronto ontem. Uma lástima, viu? Esse foi alçado em pleno voo…Mas enfim, chamei vocês porque eu quero que sigam os passos de Nilo Rodrigues.

MURILO (mente) Eu vou ficar na cola dele, pode ter certeza disso.

AMORA Sério? Então faça melhor. Tornem-se amigos (Murilo não acredita). Finja que tudo que você faz é pelo emprego, que vocês se compadecem pela historinha dele.

PAULINHA Amora, eu gosto de uma boa treta, mas não de mentir.

AMORA Ah, não? Aprenda. Pra isso que pago vocês. Se te serve de incentivo, Lila já mentiu muito pra chegar onde chegou. Manipuladora nata. Arranca o teu couro com a sua permissão ainda.

MURILO Amora, já parou pra pensar que não há nada de errado na vida desse cara?

AMORA Que isso, Murilo? Desde quando precisa ter algo errado na vida de alguém pra virar manchete? (T) Invente uma! Te vira!

Murilo engole a seco, sem ter o que dizer.

CENA 11 INT. - NOVO DIA / SALA DE REDAÇÃO – DIA

Murilo sai do escritório, chateadíssimo. Paulinha atrás.

MURILO Mas que merda! Agora vo ter que pagar de amiguinho daquele falso herói.

PAULINHA Esse é o menor dos problemas, né?

MURILO Não começa, Paulinha, não começa!

Paulinha empurra o colega discretamente em um canto.

PAULINHA (fala baixo) Escuta, cara, tu sabe que o maior podre da vida dele também é seu. Se você não chegar nele, o Thales chegará e eu não duvido nada que ele vá te entregar de bandeja pra Amora, se isso for ferrar o Nilo.

MURILO O que faremos então?

PAULINHA Vamos fazer o que a nossa chefinha mandou. E depois veremos.

Paulinha volta para a sua mesa, deixando Murilo pensativo.

CENA 12 INT. - DELEGACIA / VESTIÁRIO – DIA

Rafael, ao celular, enquanto veste a farda.

RAFAEL Se você tá pedindo, irei sim. (ri) Outro pra você, tchau, tchau.

Rafael desliga o celular ainda com um sorriso no rosto. Toninho chega por trás, de mansinho, cara amarrada. Rafael nota, faz cara feia.

RAFAEL Que é? Tá treinando pra ser cobra? Olha que tu não precisa de muito pra isso, hen.

Rafael ri do próprio comentário enquanto termina de se vestir. Toninho, com aquele olhar matador.

TONINHO O delega sabe que tu desvia do caminho pra se divertir por aí?

RAFAEL O Moreira confia em mim, Toninho. Coisa de gente competente, sabe? (faz a negativa) Não sabe.

TONINHO Você se acha o melhor, né? Tu não se dá conta de que ninguém aqui te suporta?

RAFAEL Não, não me dou conta não. Sabe por quê? Porque o meu foco é o meu trabalho, o que eu ganho e com quem eu gasto. Você devia fazer o mesmo senão nunca sairá da ralé onde habita.

Rafael sai rindo, e Toninho quase explode de raiva.

CENA 13 EXT. - RUAS DA CIDADE – DIA

SONOPLASTIA: Painkiller – Three Days Grace

A CAM dá uma rasante na cidade enquanto toca o refrão da música. Ruas estreitas, cercadas por grandes prédios antigos, lanchonetes e padarias aparentemente agradáveis nesses locais.

CAM encontra Nilo andando pela calçada, com ar de decidido.

Corta para a fachada da Mandrake PUB /

CENA 14 INT. - MANDRAKE PUB / SALÃO – DIA

FIM DA SONOPLASTIA

Um funcionário limpa o balcão; outro arruma as cadeiras. CAM BUSCA Vinnie e Raul sentados a uma mesa de poker, em uma área reservada. Enquanto um bebe vodca, Raul dá uma golada no uísque.

RAUL Tá tudo nos esquema, Vinnie. O cara vai pousar lá na área mais tarde. Vai entrar escondido no meu carro.

VINNIE Nada pode dar errado. Esse sujeito ficando frente a frente com a Moni, não teremos dúvida do fim trágico dela (ri, depois bebe um gole).

RAUL Morte súbita (ri). Mas diz aí: depois do serviço feito, o que faremos com o cara?

VINNIE O mesmo de sempre. Mate-o.

Ambos riem. É quando Nilo flagra os dois.

NILO Com licença. Atrapalho?

Closes alternados entre eles.

FADE OUT

FIM DO PRIMEIRO ATO

Anti-Herói - fim de episodio

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