Alberto Müller, trinta e oito anos, psicólogo. Um profissional imbuído de respeito e consideração por seus pacientes. Foi naquela manhã de verão que um pequenino detalhe — uma delicada mudança em sua rotina — deflagraria uma sequência de eventos inusitados. Pela primeira vez, atrasou-se para sair de casa. Isso fez seu primeiro paciente do dia cancelar a consulta. Em seu lugar, a secretária encaixou outra pessoa que há dias esperava para ser atendida: a senhora Bergmann.
Nem bem chegara, Cíntia, a secretária, cochichou-lhe que uma senhora muito bem-apessoada o aguardava em sua sala. O Dr. Müller espichou o pescoço e a viu pela fresta da porta entreaberta. Estava sentada numa confortável poltrona de couro marrom, voltada para a janela. Seus cabelos negros e ondulados, rebatidos para cima e seguros por uma presilha de marfim, deixavam à mostra seu longo e delicado pescoço. Devia ter uns trinta e cinco anos e, a julgar pela postura, parecia ser bastante refinada — suspeita que se confirmou ao ouvir sua doce voz:
— Bom dia, doutor Müller. Obrigada por me receber.
Tinha as mãos trêmulas, um comportamento tenso, olhar inquieto de gente ansiosa.
— Desculpe por invadir sua sala assim, mas quando se é vítima de um maníaco... — disse a paciente, segurando tensamente a alça de sua pequena bolsa preta.
— Vítima de um maníaco? Um caso de polícia. No entanto, fez bem em vir aqui. Permita-me tirar o paletó e colocar o jaleco, sim? — disse o doutor, ajeitando-se e recolhendo papéis espalhados sobre a mesa.
Após se sentar, abriu a gaveta e tirou de lá o gravador. Ela fixou os olhos no aparelho.
— Isso a assusta? Normalmente gravo as conversas com meus pacientes.
— Preferiria que não fosse gravado.
— Está bem. Começaremos por onde a senhora achar mais importante.
Ao tomar nota dos pontos importantes da conversa, Müller notou a ausência da ficha da paciente com os dados pessoais. Ergueu a mão, pediu desculpas por interrompê-la, foi até a porta e disse para a secretária:
— Dona Cíntia, não encontro a ficha da senhora Bergmann.
— Doutor, ela se negou a preenchê-la.
Müller estranhou. Tornou ao seu lugar. Mesmo antes de pedir para que ela prosseguisse, a paciente antecipou:
— Desculpe, evito fornecer meus dados. — disse com voz embargada, tirando da bolsinha um lenço de papel.
— Muito bem. Fale um pouco da sua vida.
Mostrando-se ansiosa, a senhora Bergmann decidiu se abrir. Primeiro acertou-se na poltrona, moveu os olhos para cima como quem busca organizar as ideias, suspirou e deu início:
— Foi mais ou menos assim...
Tudo começou há dois anos, quando seu marido Iran levou o novo sócio — um homem muito rico chamado Santiago — para jantar em sua residência. Comemoravam a abertura da empresa, uma exportadora de carnes exóticas, produto exclusivo. Pouquíssimas pessoas no mundo teriam condições de pagar por um prato tão delicioso e raro. Somente sete chefs estariam qualificados para tamanho requinte gastronômico.
Antes do jantar, tomaram um drinque. Iran estava animado e pediu ao amigo que aguardasse um instante, pois fazia questão de apresentar sua esposa. A senhora Bergmann finalmente desceu as escadas e se dirigiu à sala de visitas. Ao vê-la, Iran sorriu e segurou-a gentilmente pela mão, conduzindo-a até Santiago, que tranquilamente apreciava o drinque:
— Querida, este é o meu novo sócio, Santiago.
Ela antipatizou de imediato. Seu sorriso de boas-vindas simplesmente desmontou, dando lugar a uma feição séria e reservada. Sua intuição dizia que a vida mudaria. Santiago ergueu-se do sofá, curvou a cabeça em cumprimento formal e estendeu a mão. Hesitante, a senhora Bergmann retraiu, como quem está à beira de perder o fôlego. Confusa, deu as costas e saiu rapidamente da sala.
O marido chegou a se desculpar pelo comportamento estranho da esposa. Santiago, porém, não deu importância ao fato. Relutantemente, a Sra. Bergmann retornou. A despeito do seu silêncio durante o jantar, os outros dois conversaram animadamente, fizeram planos e cálculos de lucros. Definiram inclusive os países-alvo para as futuras negociações: África do Sul, China, Japão, Inglaterra, Alemanha e Tailândia. Na hora da sobremesa, a senhora Bergmann desculpou-se e se retirou, alegando sofrer de forte enxaqueca. No final do jantar, Santiago despediu-se e Iran mais uma vez lamentou pelo comportamento da esposa. Santiago desejou melhoras e partiu.
— O que a deixou tão incomodada em relação ao senhor Santiago? — perguntou o psicólogo enquanto anotava rapidamente os detalhes.
— Sinceramente, não sei. — murmurou a paciente, curvando os ombros com um olhar evasivo.
— Poderia descrevê-lo fisicamente?
— Claro! — disse num tom irônico. — Ele é alto, aparenta seus quarenta anos. Forte, parecido com o meu marido: cabelos, olhos e barba castanhos escuros. Aliás, muito parecido com o meu marido... e com o senhor também, doutor Müller. Sua barba faz-me recordar ambos.
— Algum outro detalhe que gostaria de acrescentar?
— Depois desse encontro, minha vida virou um inferno.
— Por quê?
Hesitante, a paciente decidiu revelar:
— Tenho a impressão de que esse sócio do meu marido é um psicopata. Sei que é. Primeiro essa coisa de negociar carnes exóticas. Depois, fomos a um restaurante reservado, a convite de um renomado chef que nos preparou um jantar especial. O sabor da carne era muito diferente — eu diria levemente adocicado. A princípio, a consistência e o paladar nos causaram repulsa. No entanto, nos acostumamos, e hoje a consumimos com frequência.
— Compulsão por carne? — estranhou o doutor Müller, anotando mais esta informação.
— Sim, doutor. Hoje somos até capazes de consumi-la crua. Comemos até nos fartar. Não engorda!
— E o que mais, além da compulsão por carne?
— Ele me segue, doutor. Por todos os lugares.
— Como sabe disso?
— Conhece cada passo que eu dou. Sou seguida...
— Como sabe que é seguida? — insistiu Müller.
— Meu carro é fechado por agentes contratados por ele. Fazem isso de propósito. Ele faz questão de que eu saiba que é ele. Um dia chegou a dizer que tem poder sobre mim. E mais: se eu estiver apreciando a vitrine de uma loja, é certeza que o verei pelo reflexo do vidro. Ele se posiciona bem atrás de mim para me vigiar. Não aguento mais. — explicou, aos prantos.
Após se recompor, enxugou as lágrimas restantes e complementou:
— Doutor, sei que não estou louca. Sou vigiada a todo instante. E esse vício maldito por carne... É um homem insano. O que devo fazer?
Müller fez várias outras anotações e indagou pela última vez, já que a sessão chegaria ao fim:
— Compulsão por carne e paranoia. — disse em voz baixa. — Alguma suspeita do porquê?
— Talvez para mantermos as receitas em segredo. É algo que ele guarda a sete chaves. O segredo só pode ser revelado a compradores especiais. Para o senhor ter uma ideia, o importador envia seu próprio avião para buscar a encomenda. Além disso, o senhor não imagina a fortuna que ambos estão fazendo. Já disse, doutor: ele é louco, um maníaco. Eu nem conheço o método de preparo! Ou então está obcecado por mim, sei lá!
— Seu marido tem ciência?
— Do quê? Que ele me segue? Claro que não!
— E quanto à compulsão por carne? Por que ela a preocupa tanto?
— Não é qualquer carne, doutor. Como disse, é um produto especial e, principalmente... a forma como é preparada. Esse é o segredo que desperta na gente algo irresistível. Meu marido e eu, quando vimos pela primeira vez o método de preparo, sentimos um enorme prazer. Se o senhor visse, sentiria o mesmo — posso garantir.
Müller levantou-se para indicar que a sessão havia terminado:
— Gosto de picanha. Bem, a senhora poderá deixar agendada a sessão para a próxima semana.
A paciente assentiu.
— Por favor, deixe também seu telefone de contato para qualquer eventualidade.
A senhora Bergmann elegantemente descruzou as pernas e se levantou. Fitou-o e disse:
— Farei isso quando tiver plena confiança no senhor. — Virou-se e caminhou a passos rápidos em direção à porta. Deteve-se por um instante: — Doutor, tenha certeza de uma coisa: o senhor será grampeado.
Acostumado a abordagens paranoicas e ameaças vazias, Müller fez a seguinte anotação clínica: Diagnóstico prévio: suspeita de crises maníaco-compulsivas e paranoia. Depois, conduziu-a gentilmente até a recepção.
— Muito bem, senhora. Não esqueça de agendar a próxima sessão.
Neste mesmo instante, o telefone tocou. Despediu-se às pressas e apressou-se em atender:
— Alô?
— Oi, querido! Sou eu. — Era sua noiva.
— Oi, amor. Estava ansioso para falar com você. Nosso encontro no final da tarde está de pé?
— Claro que sim. Liguei para ouvir sua voz e dizer que te amo. Nos vemos naquele café de sempre.
— Ótimo. Vejo você lá. Estou com saudades.
— Eu também.
— Um beijo.
Sandra — um refresco em sua vida. Preparou-se, então, para mais um atendimento.
Findo este, Müller finalmente relaxou. Pendurou o jaleco e reuniu as coisas. Rumou tranquilamente para a estação de metrô. No caminho, percebeu um carro preto — um Jaguar — a trafegar lentamente. Estranhou, já que o fluxo intenso da avenida não permitia velocidade abaixo de trinta quilômetros por hora.
"Será que estou sendo seguido?" — pensou. Riu de si mesmo. Imaginou como seria a vida se sofresse de delírio paranoico. "Bobagem."
Já no café, procurou por Sandra. Ainda não havia chegado. Escolheu uma mesa no calçadão e pediu um cappuccino gelado. Finalmente chegara o momento de relaxar — simplesmente não pensar em nada e apreciar o instante. Ao primeiro gole, vislumbrou a beleza de um final de tarde. O sol tingiu de vermelho as vidraças dos arranha-céus. A cerca de vinte metros, carros transitavam imutavelmente. Müller os observava um a um, como quem aprecia um desfile.
Dado momento, avistou o Jaguar preto. Desta vez, a janela do motorista estava aberta. Surpreendeu-se ao ver que a senhora Bergmann o dirigia. Ela lançou-lhe um olhar sério e misterioso, acionando em seguida o vidro elétrico protegido por película escura.
"Que coincidência. A lei da sincronicidade não falha." — pensou.
Enfim, Sandra chegou com sua jovialidade contagiante. Ao vê-la caminhar a passos delicados, Müller a censurou com um sorriso e um leve balançar de cabeça pelo ligeiro atraso. Aquele final de tarde fora perfeito.
No dia seguinte, um sábado ensolarado. Ele decidiu sair para uma caminhada no parque, levando consigo um livro que há muito custava a concluir. Enquanto andava, sobreveio a incômoda sensação de ser vigiado. Num relance de olhar, pensou ter captado uma diáfana silhueta feminina próxima a uma árvore do outro lado da rua. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Parou para verificar com mais atenção — nada. Isso deixou Müller pensativo.
"Crises recorrentes de súbita alucinação?" — tentou racionalizar.
Absorto, ao atravessar a rua, foi sacudido abruptamente pela buzina de um carro que quase o atropelou. Após se controlar, pedir desculpas ao motorista — e receber em troca uma dúzia de variados palavrões —, decidiu voltar para casa. Naquele fim de semana, permaneceu recluso.
Na segunda-feira de manhã, ao abrir a porta de casa, encontrou na soleira o jornal diário. A notícia de capa atraiu sua atenção: "Polícia procura sequestradores de empresário." Imediatamente, a foto da vítima o remeteu à descrição do marido da senhora Bergmann e seu sócio — um senhor de cabelos, olhos e barba castanhos. Lampejos da estranha sessão sobrevinham à mente.
O celular tocou. Era Cíntia. Disse que acabara de receber uma ligação urgente da senhora Bergmann, que suplicava para ser atendida no final da tarde e pagaria o dobro pela sessão. Mais motivado pela curiosidade do que pelo pagamento, Müller resolveu atendê-la.
Ela chegou às dezoito horas em ponto. Assim que se acomodou na poltrona, deu vazão à angústia. Contou que, desta vez, Santiago — sentia até repulsa em citar seu nome — havia decidido eliminar qualquer um que se aproximasse dela.
"Mas isso é um caso de polícia." — pensou o psicólogo, apertando os olhos e franzindo a testa.
— Creio que acaba de pensar que isto é um caso de polícia, doutor. — Müller fez que sim com a cabeça. — Não gostaria de envolver a polícia nisso. Os negócios do meu marido seriam prejudicados. Por ser um tipo de carne raro, pouquíssimos clientes teriam condições de pagar o preço. Isso seria mexer com pessoas poderosas. Para o senhor ter uma ideia, o importador envia seu próprio avião para buscar a encomenda. — disse a mulher sem conter as lágrimas.
— Então sugiro que seu marido saiba a verdade. Vocês correm sérios riscos. — insistiu Müller.
Após um silêncio, a senhora Bergmann teve uma ideia:
— Doutor, poderíamos tentar conversar com Santiago — nós dois, eu e o senhor. Ocorreu-me convidá-lo para ir à minha casa e, sem que soubesse, o senhor estaria lá. Um encontro com fins terapêuticos. Seria oportuno para entender o real motivo de sua obsessão por mim.
— E seu marido?
— Ele viajou para o Canadá. Volta em três dias.
— Eu... não sei se...
— Por favor. Preciso da sua ajuda. — disse, inclinando o corpo para frente com um olhar lacrimoso.
Müller permitiu que seu coração generoso e a curiosidade assumissem a razão. Por fim, concordou.
— Que tal esta noite, doutor?
— Não é do meu costume... Tudo bem. Combinado. Às vinte horas?
— Perfeito! — exclamou a paciente com um amplo sorriso. — Moro próximo à igreja Nossa Senhora das Graças, na rua das Aroeiras, 229. Posso lhe dar uma carona.
— Não, obrigado. Sei onde fica.
Somente meia hora depois, já a caminho da mansão, Müller deu-se conta da loucura que havia feito. "Esse meu ímpeto salvacionista vai me matar um dia." — pensou. Várias outras coisas passavam pela sua mente: "E se ele estiver armado? Uma pessoa que persegue outra poderia andar armada." A insegurança aumentou à medida que se aproximava do local. Tentou abrandar os pensamentos ruins: "Afinal, é apenas uma conversa a três. Talvez possa ajudar."
Finalmente chegou à mansão cuja fachada estava iluminada. Estranhamente, porém, o interior estava escuro. Müller pensou em recuar, mas a curiosidade o atiçava. Notou o portão aberto e o cabo da câmera de segurança desconectado. Oscilou por um instante, mas decidiu entrar. Bateu à porta e viu surgir uma raia tênue de luz por debaixo dela. Em seguida, a própria senhora Bergmann atendeu.
Müller comentou a estranheza quanto à ausência de funcionários. Ela justificou dizendo que dera folga a todos.
— O senhor gostaria de um café? Não ofereço vinho ou uísque, pois sei que negaria. Está a serviço...
— Sim, um café seria ótimo. — disse Müller enquanto deslizava os olhos sobre os detalhes da sala, decorada com extremo requinte.
Perguntou se Santiago havia confirmado a vinda. Calmamente, ela respondeu que sim.
— Um plano simplório demais para um homem astuto. — disse Müller, já preocupado com a meia hora que havia passado além do horário marcado.
— Ele é um homem com sede de novas experiências, doutor. É a caça convidando o caçador. Haveria algo mais tentador?
Müller não deixou escapar o súbito comportamento sensual da senhora Bergmann — algo bastante estranho para uma situação de expectativa.
— Aguardarei mais quinze minutos. Caso não chegue, lamento, mas terei de ir. — disse após checar o relógio.
A senhora Bergmann concordou e pediu licença para ausentar-se por alguns minutos. Müller meneou a cabeça, mas incomodou-se com o silêncio que inundou o ambiente. Para amenizar a tensão, decidiu tomar mais um café. Com a xícara em mãos, caminhou em direção à sala de jantar. À direita, uma parede de vidro permitia vislumbrar o amplo jardim iluminado. À esquerda, a porta da cozinha.
Olhou o relógio — os quinze minutos haviam se esgotado. Hora de partir. Desistiu do café. Retornou à sala de visitas, pousou a xícara sobre a mesa e chamou:
— Preciso ir! Talvez devêssemos nos ver no consultório na próxima semana.
Nenhuma resposta.
— Senhora Bergmann! Tenho que ir. — chamou várias vezes, alçando a voz. Nada.
De repente, ouviu um estalo vindo da cozinha. Apressou-se para lá.
— Senhora Bergmann, não precisa se preocupar em preparar nada...
Ao chegar, não havia ninguém. Somente uma pálida luz iluminava o ambiente. No canto esquerdo, uma porta entreaberta — de lá, uma névoa suave escapava. Müller imaginou ser uma câmara frigorífica. Talvez a senhora Bergmann estivesse selecionando ingredientes para algum petisco.
— A senhora está aí?
Abriu vagarosamente a porta e entrou. A luz fraca da cozinha iluminava timidamente o interior; algumas peças de carne pendiam no escuro. Impossível ver detalhes, mas pareciam finamente preparadas.
Esticou a mão e tocou numa peça. Aromas de ervas finas e temperos especiais exalavam das carnes dependuradas. Dedilhou acidentalmente algumas partes metálicas — algo como grampos.
"A carne é grampeada ao invés de amarrada? Certamente é para conter o recheio. A gastronomia evolui!" — concluiu pensativamente.
Subitamente, a porta da câmara se fechou. Na escuridão, não foi possível localizar o interruptor. Müller recuou em direção à porta — trancada. Bateu, esmurrou e gritou. Ninguém para acudi-lo. Um silêncio denso sobreveio, frio como a morte.
O pobre psicólogo tentou alguns passos à frente. Primeiro sobreveio o medo, depois o crescente tiritar de frio e, por fim, o pânico. Tudo conspirava para convencê-lo de que não sairia tão cedo.
Repentinamente, um lufar quente tocou-lhe a nuca. Parou.
— Tem alguém aí?
O sopro ritmado parecia uma respiração — que se tornou rápida, semelhante a um ofegar excitado. Müller sentiu um arrepio subir pela espinha. Virou-se e tentou agarrar o que ou quem pudesse estar atrás dele. Os movimentos desordenados dos braços no vazio e o chão escorregadio o fizeram cair.
Em seguida, um golpe certeiro atravessou-lhe impiedosamente a garganta.
Com o rosto contra o chão gelado, sentiu o cálido sangue escorrer. Em agonia, viu a câmara abrir. Uma gota de esperança em meio àquele horror o fez clamar por socorro — mas sem voz, sem conseguir mover a cabeça, com a respiração rápida e falha, viu com o canto dos olhos três figuras: dois homens e uma mulher.
— Querida, mais um com barba? Por quê?
— Homens de barba são mais dóceis e tolos. — respondeu friamente a mulher.
Müller tentou gritar, mas só mexeu os lábios numa tentativa fracassada de balbuciar palavras.
— Santiago, você trouxe os grampos? — perguntou Iran em voz de comando.
— Temos que preparar a carne para a semana que vem. Mais um comprador na fila de espera. Tomara que a câmera de infravermelho tenha filmado o golpe — o comprador valoriza mais o produto ao ver as cenas da execução.
— Senhora Bergmann, devo confessar que foi certeira. Diria... cirúrgica! — disse Santiago, rindo enquanto preparava o instrumental.
— Obrigada pelo elogio. Procuro melhorar. Incrível mesmo é como isso vicia. — disse a senhora Bergmann friamente enquanto abria um saco plástico.
À medida que o sangue se esvaía pelo ralo, os sentidos da presa tornaram-se confusos. A visão turvou e as vozes se fundiram aos sons do ambiente. Muito fraco, Müller tentou levantar-se — mas a última golfada da artéria exposta fez seu corpo desmoronar.
Por fim, deu o último suspiro.
Uma semana depois
— Querida, sou eu. Santiago virá hoje para o jantar.
— Eu sei, meu bem. Já pedi para a nossa chef temperar a carne. Ela também preparará algumas iguarias. Tenho certeza de que apreciarão.
— Ótimo. Tenho uma reunião neste instante — cliente novo. Seu pedido nos renderá uma fortuna. Preciso ir. Te amo. Um beijo.
— Só um instante. Não desligue.
— Sim, querida?
— Consegui mais carne para a semana que vem. Será especial.
— Ótimo, avisarei os compradores. Você é fantástica! Um beijo.
— Um beijo, Iran.
FIM