Boa noite, querido(a) leitor(a)! Vamos dar continuidade, no programa de hoje, ao Manual do Roteiro.
Nas edições anteriores, definimos o gênero roteiro, descrevemos seus principais elementos e analisamos as partes estruturais mais importantes — cabeçalho, descrição, fala e transição.
Hoje daremos foco a alguns efeitos técnicos que podem ser utilizados por você para dar um aspecto mais sofisticado ou cinematográfico à sua obra. Antes de apresentá-los, alguns lembretes importantes:
Se estiver inseguro(a) com a funcionalidade de um ou mais efeitos, prefira não utilizá-los;
Cuidado para não encher o texto de comandos: menos é mais. A roteirização não é a arte de esbanjar efeitos mirabolantes, mas uma forma prática de escrever dramatizações a fim de ser interpretada por atores, diretores e membros da equipe técnica.;
Por isso um roteiro não é inferior aos outros porque não faz uso de dollys e motions. Na verdade, isto depende das necessidades da história em si e do veículo que vai transmiti-lo. Um roteiro de cinema fará muito mais uso dessa linguagem específica do que um de novela. Um filme pode exigir muito mais recursos visuais do que outro, dependendo do gênero.
Roteirista não é diretor, lembra?
Vamos às ferramentas? Na listagem abaixo, a palavra objeto indica pessoa (personagem ou figurante), animal ou coisa.
ÂNGULO ALTO: a câmera foca um objeto de cima pra baixo;
ÂNGULO BAIXO: o mesmo, porém de baixo pra cima;
ÂNGULO PLANO: a filmagem é feita em plano horizontal em relação à posição da câmera;
CÂMERA (ou CAM) OBJETIVA: a cena é filmada do ponto de vista de um público imaginário;
CÂMERA (ou CAM) SUBJETIVA: a lente capta as imagens como se fossem os olhos de um personagem;
DESFOCAR: a câmera muda o foco de um objeto para outro;
DOLLY ou GRUA: é um veículo que transporta a câmera e o operador, a fim de facilitar determinadas tomadas. Os movimentos são geralmente suaves. Tem quatro tipos básicos:
DOLLY IN: movimento de aproximação da grua em relação ao objeto da cena;
DOLLY BACK: movimento de afastamento;
DOLLY OUT: movimento de afastamento e de saída da cena;
DOLLY SHOT: qualquer movimento de aproximação ou de afastamento da grua na cena, podendo ocorrer na horizontal ou na vertical.
FREEZE, CONGELA ou CONGELAMENTO: a imagem “paralisa” graças a uma repetição de frames iguais. Muito comum em fechamento de capítulos de novelas ou em shots de maior impacto em filmes;
PANORÂMICA: a câmera se move de um lado a outro, dando uma visão geral do ambiente;
PLANO: área sobre a qual a câmera faz o enquadramento. Alguns tipos:
CLOSE ou PLANO DE DETALHE: foca num detalhe específico, como os olhos de um ator ou uma caneta sobre a mesa;
PLANO PRÓXIMO: enquadra o personagem do tórax pra cima;
PLANO MÉDIO: enquadra-o da cintura pra cima;
PLANO AMERICANO: enquadra-o dos joelhos pra cima;
PLANO GERAL: enquadra uma área praticamente completa do cenário;
PLANO DE CONJUNTO: enquadramento um pouco mais fechado que o plano geral, mas ainda assim bem amplo.
PONTO DE VISTA (POV): a câmera mostra o ponto de vista do personagem. Neste caso, a câmera é subjetiva;
QUICK MOTION: câmera acelerada. Muito utilizado em cenas com ação;
SLOW MOTION: câmera lenta. Utilizado para dar mais impacto às cenas que envolvam ação ou tensão;
TRAVELLING: a câmera acompanha o andar de um ou mais atores;
ZOOM: aproximação (zoom in) ou afastamento (zoom out) repentino em relação aos detalhes de um objeto. O que se movimenta é a lente e não a câmera.
Existem muitos outros efeitos de câmera, mas com estes já é possível fazer um trabalho mais cinematográfico à sua obra se assim ela exigir. Eu, por exemplo, uso apenas os PLANOS e somente quando quero realmente destacar algum enquadramento. Em novelas, por exemplo, o uso desses recursos é muito raro e depende das opções do roteirista. Por isso, deixe o “trabalho sujo” para o diretor — ou, no caso do Mundo Virtual, para a imaginação dos leitores.
Vamos falar rapidamente sobre a sonoplastia. Ela trata dos efeitos sonoros e da trilha sonora (música e temas incidentais). Como colocá-los num roteiro? Seguem duas dicas básicas:
Efeitos sonoros: sons diversos como passos, bipes, toques de telefones e campainhas, “vozes” de animais, o jorrar da água de uma torneira e até o silêncio (!). Neste caso, você pode dar instruções ao sonoplasta na própria descrição da cena, usando elementos simples de destaque, como letras maiúsculas, sublinhado ou parênteses. Exemplos: Cândida dorme na cama, totalmente coberta. O celular TOCA. A moça acorda, move-se lentamente e atende o telefone. Sentado no sofá, Juca lê o jornal. (Sonoplastia: canto de pássaros) Juca para de ler e presta atenção ao som que vem de fora.
Temas musicais: são músicas colocadas para “enfeitar” as cenas, podendo representar personagens, situações ou stock shots (sequências que ilustram cenários e locações entre uma cena e outra). Elas geralmente vêm na descrição, destacadas com negrito e/ou itálico, geralmente isoladas dos outros parágrafos da cena. Exemplo de Anti-Herói: SONOPLASTIA: Welcome To The Jungle – Guns N’ Roses
Temas incidentais: são músicas instrumentais que dão ênfase às cenas de acordo com a intenção — suspense, tensão, romance, erotismo, terror, comédia etc. Alguns autores preferem descrevê-las do mesmo jeito que os efeitos sonoros, enquanto outros os tratam como os temas musicais. Exemplo: SONOPLASTIA: música cômica.
Os temas musicais e os incidentais, por terem certa duração, podem/devem ser interrompidos a um dado momento do capítulo. Para isso, usa-se um comando do tipo: FIM DA SONOPLASTIA
Na próxima semana, vamos analisar, com o que vimos até hoje, trechos de quatro histórias em roteiro, uma de cada emissora. Você não perde por esperar. Vai ser muito bom vivenciar essa experiência.
O Observatório fica por aqui, mas daqui a pouco tem o Cyber Backstage. Fique ligado(a). Até já!