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Noite de Natal
Capítulo 2 de 7
Noite Feliz
✍️ Eduardo Moretti · Antologia: Central Widcyber ·📅 09 Jun. 2026 ·👁 0 leituras

"Natal é tempo de comemorar a vida, espalhar o amor e semear a esperança. Tenha um Feliz Natal!"

21 de Dezembro de 2020 Woods Hole, Massachusetts

Como fazia frio naquela época do ano, meu Deus! E a pior parte disso tudo era ter que sair de casa toda agasalhada e, ainda por cima, com um cachecol enrolado no pescoço e um chapéu ridículo na cabeça que cobria até as orelhas, para fazer compras — pensou Mildred meneando a cabeça, enquanto saía do supermercado carregando dois pacotes pesados. Pensando bem, aquilo não era a pior coisa do mundo, mas sim ser velha o bastante para ter que usar tanto agasalho só para não correr o risco de ficar doente e pegar uma pneumonia grave. Pois, como já dizia o seu falecido avô: "O que mata velho é tiro no peito, vento nas costas e neve na cabeça." Lembrou-se rindo ao rever a imagem na sua cabeça do avô dizendo uma de suas famosas frases, que a faziam tanto rir na infância e adolescência. Ele ainda ficava bravo com ela e lhe dizia: "Não ri não, garota. Hoje você é uma bela mocinha, mas daqui alguns anos você viverá na pele o que eu estou dizendo. Aí você vai ver só o que é bom para a tosse." — dizia ele, categórico. — É... Parece que finalmente esse dia chegou, velho Carl. E hoje eu compreendo o que o senhor queria me dizer. Como eu gostaria de ter a mesma disposição e saúde de quarenta anos atrás — disse com pesar e o olhar distante.

— Senhora MaCluskey? Se importa se eu ajudar a senhora com as compras? — perguntou o jovem Andrew, que trabalhava no supermercado, enquanto corria apressado na sua direção.

— E onde o senhor estava depois que eu passei pelo caixa, que não veio me ajudar antes, hein? — indagou ranzinza.

— Me desculpe, senhora. É que o senhor Lewis me chamou no escritório. Três funcionários faltaram hoje; parece que foram pegos por um surto de gripe. E eu estou tendo que trabalhar dobrado hoje — disse, tímido.

— Sei... Surto de gripe, é? Toma. Pega essas sacolas e leve-as até o carro para mim — disse, passando as sacolas para o garoto, e foi indo na frente para abrir a porta.

O jovem garoto adorava carros e sempre ficava impressionado com o fusca amarelo da senhora MaCluskey, mais precisamente em como ele ainda rodava pelas ruas da pacata Woods Hole perfeitamente.

— De que ano é esse carro, senhora MaCluskey? — perguntou, curioso.

— A minha velha e querida amiga Ximbica? Ah, ela deve ter no mínimo três vezes mais que a sua idade, meu jovem. E ainda desliza pelas ruas sem nenhuma dificuldade; nunca me deixou na mão. Mas eu sempre digo que o mais importante de um carro é se ele te leva aonde você precisa ir, e não o ano em que foi fabricado. Aprenda isso, garoto... E a Ximbica sempre me leva aonde eu quero e preciso ir. Minha velha amiga de guerra — disse, toda orgulhosa, enquanto batia no capô do veículo. — No mês passado ela me levou até uma cidadezinha no interior do Kansas, na casa da minha irmã. Foram mais de quatro horas de viagem que ela aguentou bravamente. O segredo é sempre trocar o óleo, não deixar faltar água no carburador e levar para revisão pelo menos a cada seis meses, no máximo. E, claro, eu nunca me esqueço de dar um bom banho na bichinha e depois passar uma cera esmaltada de boa qualidade nela toda semana, para ela ficar sempre bonita e brilhando.

— Nossa! A senhora entende mesmo do negócio. Eu adoro carros... Não vejo a hora de ter um só para mim — disse, entusiasmado.

— Para isso você só precisa estudar e trabalhar muito, viu? Você vai conseguir, eu tenho certeza disso — disse, puxando o banco do carro para trás. — Bom, eu tenho que ir agora... Se cuida, Andrew.

A senhora MaCluskey entrou no carro, fechando a porta, e quando passou o cinto, ela percebeu que o garoto continuava parado no mesmo lugar, perto do carro, olhando para ela como se estivesse esperando alguma coisa.

— Algum problema, garoto? Acho que estão te esperando lá dentro. Deve ter mais compras para você carregar.

Andrew nada disse e apenas estendeu uma das mãos na direção da senhora MaCluskey.

— Ah, já sei... Você deve estar esperando uma gorjeta pela ajuda prestada, não é mesmo? — perguntou, sorrindo.

— Sim, senhora — concordou, tímido.

— Então você me deixa sair do supermercado com as compras na mão e só quando eu já estou quase perto do meu carro é que você aparece, todo solícito, querendo me ajudar e se oferecer para carregar minhas compras, e ainda por cima espera ganhar uma gorjeta? Não. Obrigada, mas hoje você não ganha gorjeta alguma — disse, já ligando o carro.

— Mas, senhora MaCluskey, isso não é justo. E, depois, é natal. As gorjetas dessa época do ano me ajudam muito para poder comprar um presente para a minha mãe e para a minha irmãzinha — disse, tentando comovê-la.

A senhora MaCluskey então abriu sua bolsa e tirou uma moedinha de dentro, entregando ao garoto logo em seguida.

— Sei... Por isso eu detesto o natal. Toma, garoto. É tudo que eu tenho. As coisas estão difíceis e, depois, ainda nem é natal. E da próxima vez melhore no atendimento e nas desculpas, ouviu?

— Mas isso é muito pouco. O que eu faço com apenas dez centavos?

— Quer mesmo que eu fale? Coloca no cofrinho e vai juntando. Você conhece o ditado: de grão em grão... E, depois, como eu já disse, você só fez metade do serviço, logo não tem que reclamar de nada. Agora eu preciso ir. Tchauzinho.

O garoto, nada contente com a situação, ficou meneando a cabeça, enquanto a senhora MaCluskey saiu apressada com a sua Ximbica.


Mildred estacionou sua velha Ximbica em frente à sua casa, mas teve dificuldades de sair de dentro do veículo devido ao aumento considerável de neve que se aglomerou por todo o jardim e em volta da casa. Ela então desceu do carro e afundou suas botas na neve, praguejando na mesma hora:

— Que droga!

Leroy, seu vizinho, que a observava a poucos metros, estava tirando um pouco da neve de sua porta e começou a rir copiosamente. Mildred, ao notar, ficou enfurecida.

— Hei, você aí, velho gagá... É você mesmo. Está rindo do quê, posso saber? Se não pretende ajudar, também não atrapalhe, Leroy, por favor. Fica na sua — disse, nervosa, enquanto pegava as sacolas de compras dentro do carro e observava um garotinho sentado do outro lado da rua, a encarando.

De repente, uma de suas sacolas rasgou, derrubando todas as suas compras no chão. Foi aí que Leroy não se conteve mesmo e caiu na gargalhada.

— Hei, Mildred, tem certeza de que não quer mesmo uma mãozinha aí? Parece que a sua está furada.

— Ó Leroy... Por que você não vai ver se eu estou lá no Polo Norte puxando o saco do Papai Noel, hein? Furada por furada, meu caro, eu ainda sou mais a minha mão do que a sua, seu velho idiota — falou, rindo da cara dele.

— Leroy! Implicando com a Mildred de novo? Vem já pra dentro tomar o seu banho antes que a temperatura esfrie ainda mais e você acabe se resfriando de novo. Foram três vezes só nos últimos cinco meses. Vem, anda logo — ordenou Ethel, esposa de Leroy, já impaciente.

— Eu me lembro bem, Ethel — gritou Mildred para a amiga. — A tosse de cachorro louco dele não me deixava dormir à noite. Vai, Leroy, já pra dentro. Obedeça à sua esposa e depois tome seu leitinho quente, homem teimoso — disse Mildred, tirando sarro da situação e se divertindo muito.

Leroy entrou em casa emburrado, olhando sério para Mildred, que sorria vitoriosa. De repente, ele voltou, parecendo um menino travesso, e mostrou a língua para ela, que ficou indignada.

— Mas olha só para isso! Você tem quantos anos, hein, seu velho gagá? Cinco?

— Me desculpe, Mildred. O Leroy é fogo. Mas você também não facilita, não é mesmo? — disse Ethel, apaziguando as coisas.

Mildred só resmungou alguma coisa de longe e, num gesto com a mão de "deixa pra lá", se abaixou e começou a apanhar suas compras do chão.

— Você quer ajuda, minha querida? — perguntou Ethel, toda solícita.

— Não. Obrigada. Pode ir cuidar do seu velho rabugento, eu estou bem.

— Okay. Mais tarde eu dou uma passada na sua casa. Eu estou testando uma receita nova de torta de maçã para o natal, e o cheiro está ótimo. Eu te levo um pedaço — disse Ethel, antes de entrar e fechar a porta.

Mildred então estava apanhando as compras que haviam caído do chão quando viu o garotinho se aproximando dela.

— Eu posso ajudar à senhora? — perguntou, tímido.

— Escuta aqui, garoto, se você veio me ajudar querendo dinheiro, eu já vou logo avisando que não tenho. Gastei tudo com as compras de hoje e devo receber mais algum só daqui a dois dias...

Mildred foi levantando a cabeça devagar e olhou diretamente para o garoto parado na sua frente. Ele usava um tênis velho com um buraco na frente que deixava escapar o dedão, e estava usando um par de meias sujas que não deviam ver água e sabão há um bom tempo. Sua calça de moletom azul-escura estava bem surrada e, para completar, seu casaco era bem velho e gasto. Ele usava um gorro preto na cabeça que ficava puxando para baixo toda hora, como se estivesse sentindo muito frio no rosto. Mildred ficou espantada, e seu velho coração doeu de ver um garotinho tão esperto e bonito naquela situação — o que, embora tenha mexido muito com ela, não foi o que mais lhe chamou a atenção nele.

— Senhora... Senhora... Você está bem? A senhora está sentindo alguma coisa? — perguntou, preocupado.

— Ãhn... Oi? — disse Mildred, confusa e voltando a si. — Eu estou bem sim, garoto. Eu só tive uma queda de pressão, coisa de velha. Já está passando.

— Deixa que eu te ajudo. A senhora mora sozinha? Não tem filhos, nem marido para te ajudar? — perguntou, curioso.

— Que interrogatório é esse, garoto? Escuta aqui: se você está pensando em me assaltar, é melhor saber que, apesar de velha, eu não sou nada indefesa, ouviu? E também guardo uma arma em casa. Uma espingarda que te acertaria a cinquenta metros de distância, ainda que você corresse muito. Eu tenho uma ótima mira.

— Não, senhora. Eu juro que não quero te assaltar. Eu só pensei que... Deixa para lá. Eu vou embora — disse, cabisbaixo, e foi saindo.

— Hei, garoto, espera... Qual o seu nome? — perguntou, olhando para ele com certa curiosidade.

— Eu me chamo Max.

— E Max do quê? Max é o seu nome mesmo ou é apelido?

— Eu já disse que me chamo Max. Apenas Max — disse, sério.

— Muito bem, Max. E o que você queria dizer, quando disse que só pensou que... e depois resolveu não falar mais nada? Eu notei você me olhando, sentado do outro lado da rua, desde que eu estacionei o carro. Está muito frio e começando a nevar. Eu só queria entender o que um garotinho lindo e esperto como você faz aqui fora na rua — perguntou Mildred, curiosa.

— Nada não, senhora Mildred. Eu já vou embora — disse, sem encará-la.

— Ah, então você sabe o meu nome...

— É que eu acabei ouvindo a sua discussão com o velho Leroy.

— Claro. Mas pode me chamar de senhora MaCluskey, que é o meu sobrenome. É como todos me chamam e, afinal, todo idoso deve ser tratado com respeito — falou, com um meio sorriso.

Mildred ficou em silêncio por um instante, enquanto observava o garoto, cabisbaixo. Havia algo nele que lhe chamava a atenção, e ela sentia que precisava ajudá-lo de alguma forma — ainda que não soubesse como. E ela não podia ignorar o seu velho e sábio coração, de quem já viveu o bastante para saber ler nas entrelinhas e sentir quando há algo de errado.

— Vamos fazer o seguinte, Max... Não é esse o seu nome? — perguntou, enquanto o garoto balançou a cabeça, afirmando que sim. — Você me ajuda com as compras, nós carregamos tudo lá para dentro e depois eu lhe sirvo uma enorme caneca de chocolate quente cremoso com uns biscoitinhos amanteigados que derretem na boca. Fui eu mesma que fiz. O que me diz? Parece justo, você não acha? — indagou, sorrindo. — Sem contar que é uma boa pedida para esse frio que está fazendo. Vem, anda logo, que a neve está começando a aumentar.

O garoto Max olhou com carinho para a senhora MaCluskey, sorriu e depois se levantou. Então a seguiu e a ajudou com as compras.


Depois de guardar as compras no armário e na geladeira, Mildred preparou um delicioso chocolate quente cremoso, como havia prometido a Max, e serviu para o garoto junto com os amanteigados que ela tão bem sabia fazer. Mildred ficou surpresa de ver o quanto ele devorou tudo em menos de cinco minutos. O garoto devia estar faminto — pensou ela, que estava sentada no sofá de frente para ele, que logo colocou a caneca vazia em cima da mesinha de centro da sala de visitas, bem decorada e aconchegante.

Max reparava tudo à sua volta: o estofado branco florido, o tapete bege felpudo, a mesinha de madeira com o centro de vidro, as cortinas brancas de cetim com babado em rendas bege na parte de cima. Havia, num canto da sala, um velho, porém bastante conservado piano de cauda, com alguns retratos sobre ele — fotografias de crianças e jovens, rodeados sempre de um senhor e da senhora MaCluskey mais nova.

Mildred deixou que ele se sentisse à vontade e à vontade, por isso não disse nada, apenas observava aquele tímido e misterioso garoto de olhar triste, que despertava sua curiosidade e a fazia sentir-se muito bem, apesar de ambos ainda serem completamente estranhos um para o outro. De repente, Max se levantou devagar e foi até o piano, passando a olhar para os retratos durante um tempo. Logo em seguida, voltou o seu olhar para Mildred, como se quisesse perguntar alguma coisa, mas sem saber como.

— Você aceita mais um pouco de chocolate quente com uns amanteigados extras? — sugeriu ela, simpática.

— Não. Obrigado, senhora MaCluskey. Eu já estou cheio — disse, voltando a olhar para as fotos.

— Satisfeito — disse ela, corrigindo-o.

— O que foi que a senhora disse? — indagou Max, se voltando para ela.

— Nada. Eu apenas o corrigi. Você disse que estava cheio, e é feio falar assim. O correto mesmo é "satisfeito". Entendeu?

— Ah, sim. Me desculpa, senhora MaCluskey.

— Não precisa se desculpar. Como dizia a minha mãe, que Deus a tenha: você é novo ainda e vai aprender — disse, sorrindo.

— Quem são essas pessoas nos retratos? — perguntou de supetão, com certo receio. — São os seus familiares?

— Calma... Uma pergunta de cada vez, meu jovem. Eles são, sim, ou pelo menos deviam ser. Mas todos me abandonaram, foram embora, me deixando sozinha — disse Mildred, com lágrimas nos olhos. — Mas eu não gosto muito de falar nesse assunto.

— Eu entendo — disse Max, triste. — Bom, é melhor eu ir andando agora, antes que anoiteça. Muito obrigado pelo chocolate quente e também pelos amanteigados, senhora MaCluskey. Eles estavam deliciosos.

— Espera, Max... Está nevando forte lá fora, e tudo indica que vem mais uma nevasca por aí. Eu acho melhor você ligar para os seus pais e dizer que está aqui, assim eles vêm te apanhar. O que acha da ideia?

— Melhor não, senhora MaCluskey. Eles podem não gostar e brigar comigo — falou, cabisbaixo.

Mildred então o pegou pela mão e o trouxe para se sentar no sofá, sentando-se ao lado dele.

— Sabe, Max, eu já sou uma senhora vivida. Tenho idade para ser sua avó e sei muito bem quando alguém está mentindo para mim, rapazinho... E eu sei que você está mentindo desde que entrou por aquela porta. Você me ajudou a carregar as compras, eu te convidei para entrar na minha casa, lhe servi o meu chocolate quente cremoso especial e os meus famosos amanteigados, que eu só ofereço para pessoas também especiais... Portanto, eu acho que nós já nos tornamos amigos. E, na qualidade de sua mais nova amiga, eu vou perguntar uma vez só e quero que você seja sincero comigo, okay? Quem são os seus pais e onde você mora?

Max respirou fundo, olhou nos olhos da senhora MaCluskey e depois baixou a cabeça, envergonhado, antes de responder:

— Eu... Eu não tenho casa e também não tenho pais. Eu moro na rua. Agora eu preciso ir. Foi um prazer conhecer a senhora. Adeus, senhora MaCluskey.

— Espera! — disse Mildred, colocando-se na frente dele. — Você não vai a lugar nenhum, garoto. Já está tarde, a nevasca está forte lá fora e, depois, eu não podia imaginar que... Enfim, que você morasse na rua — disse, com pesar, e então puxou o garoto para si, fazendo um carinho nele.

— A senhora está com pena de mim, e eu detesto que sintam pena de mim — disse ele, afastando-se de Mildred.

— Não. Eu juro que não estou com pena de você. Eu só quero te ajudar. Vem aqui, senta aqui um pouquinho, Max... Que tal você tomar um banho, trocar essa roupa... Eu ainda tenho roupas do meu filho caçula aqui que devem servir direitinho em você. Depois eu preparo um jantar gostoso para a gente, e você dorme aqui essa noite. O que acha? Não é uma boa ideia?

— Por acaso eu tenho cara de idiota? A senhora está querendo me entregar para o serviço social, isso sim! — disse, já se levantando, mas ela o segurou.

— Eu juro por Deus que não, Max. Confia em mim, por favor! Eu não vou te entregar. Eu só quero te ajudar.

— Tudo bem, então. Eu vou confiar. A senhora me parece ser uma boa pessoa. Eu fico aqui essa noite e amanhã vou embora.

— Ótimo! Você não vai se arrepender. Vem comigo, eu vou te mostrar onde fica o banheiro e pegar uma troca de roupas limpas para você, enquanto eu preparo o jantar.

— O meu gorro não. Nele ninguém toca! — disse, sério.

— Tudo bem, garoto do gorro intocável. Você pode ficar com ele — disse Mildred, rindo.


Max tomou o seu banho, vestiu as roupas limpas que Mildred lhe deu e permaneceu com o seu velho gorro na cabeça. Depois eles jantaram rosbife com purê de batatas — uma das especialidades de Mildred, da qual Max adorou e até repetiu. Durante o jantar, eles permaneceram em silêncio, mas se encarando o tempo todo, como se estivessem analisando um ao outro. Mais tarde, depois de se aquecerem ao redor da lareira na sala, Mildred preparou o sofá para Max dormir e o cobriu com dois edredons bem quentinhos. Ela ficou observando como ele dormiu rapidinho e depois chorou pelo fato de milhares de crianças que, ao invés de ter um lar e estar estudando, estavam morando nas ruas e passando por tantas dificuldades.

De repente, ela ouviu a porta da cozinha batendo e tratou de secar logo suas lágrimas.

— Mildred... Mildred, querida, sou eu. Aonde você está? — perguntou Ethel, deixando um prato coberto por papel laminado em cima da mesa, e depois foi até a sala. — Ah, aí está você. Eu trouxe um pedaço de torta de maçã para você, deixei lá em cima da... Mas o que significa isso? — perguntou Ethel, surpresa ao ver Max dormindo no sofá da amiga.

— Ora, é um garoto, não está vendo? Pelo que eu saiba, você é mais nova do que eu, Ethel, para já estar ficando cegueta — disse Mildred, puxando-a pela mão. — Vem comigo, vamos tomar um café na cozinha. Está fresquinho, eu acabei de passar.

— Eu sei que é um garoto, Mildred. Eu só estranhei você ter colocado um estranho dentro de casa e, ainda por cima, para dormir no seu sofá — disse, puxando a cadeira e sentando-se.

— Um estranho, Ethel? Ah, por favor! Ele é apenas um pobre garoto de rua, que nem família tem. Que mal ele pode querer fazer a uma velha como eu? Eu conheço o Leroy há quarenta anos e ele me dá muito mais trabalho que o Max. E, depois, eu confio na minha intuição, e eu senti que esse garoto precisa de ajuda. E eu vou ajudá-lo — disse, decidida, enquanto servia uma xícara de café para a amiga.

— Tudo bem. Se você diz que confia nele, eu também confio. Eu só quero o seu bem, minha amiga — disse, sorrindo. — Agora você e o Leroy, hein, vou te contar... Parecem duas crianças turronas que só sabem brigar.

— É o que nós somos, Ethel: duas crianças turronas, ou, se preferir, dois velhos teimosos, o que dá na mesma — disse, rindo. — Você nunca ouviu dizer que depois de velhos nós voltamos a ser crianças? Pois então. E, depois, eu confesso que o meu passatempo predileto é implicar com o Leroy.

— Eu sei, e o dele é implicar com você. E no meio disso tudo fico eu tentando apaziguar as coisas entre vocês... Eu juro por Deus que qualquer dia vocês ainda vão me obrigar a ter que escolher entre um dos dois — disse Ethel, meneando a cabeça e tomando um gole de café.

— Coitado do velho Leroy de guerra... Eu vou sentir tanta pena dele quando esse dia chegar e ele ter que ir embora — disse Mildred, sorrindo.

— Por quê? Eu não disse que escolheria você, sua convencida.

— E precisa? Você não vive sem mim, Ethel, que eu sei...

— Sei, vai sonhando... Agora deixa de bobagem e vê se prova logo a minha torta de maçã, que eu não a trouxe para você decorar a sua mesa de jantar, não. E já vou logo dizendo que ela está deliciosa — falou Ethel, toda convencida.

— Bom, quanto a isso, eu terei que provar para ver, não é mesmo? — indagou Mildred, provocando Ethel e sorrindo ao mesmo tempo.


Naquela noite, Mildred custou a pegar no sono. Por várias vezes ela se levantou no meio da noite, inquieta, e ia até a sala ficar olhando para Max, que dormia feito um anjo; depois ia até a cozinha, onde bebia água, e em seguida voltava para o seu quarto para tentar dormir. Mas ela não conseguia pregar o olho. A história daquele garotinho mexera muito com ela, mas Mildred se recusava a aceitar os fatos e, por isso, estava sofrendo do seu jeito, em silêncio.

Da casa ao lado, Ethel também havia levantado para ir ao banheiro e beber água durante a madrugada, e notou a luz da cozinha de Mildred acesa. Preocupada, ela decidiu ligar para a amiga.

— Telefone tocando à uma hora dessas... Não pode ser coisa boa — disse Mildred, indo atender. — Alô? Ethel, sua maluca! — exclamou, furiosa. — Você quase me mata do coração ligando pra cá uma hora dessas... O que foi que aconteceu? Não me diga que o Leroy... Ah, ele está bem então. Não. Aqui está tudo bem sim, é que eu perdi o sono, só isso.

— Que bom que é só isso. É que eu fiquei preocupada com você. Bom, eu vou voltar para a cama, então... Boa noite, Mildred. Qualquer coisa é só me chamar — disse Ethel, pensativa.

— Eu sei. Obrigada. Boa noite, Ethel.

Mildred desligou o telefone e, antes de ir para o quarto, deu mais uma olhada em Max e sorriu ao ver que ele continuava dormindo profundamente.

— Ai, ai... Como você me lembra o meu Mike — disse, suspirando e tentando conter o choro.

Em seguida, apagou as luzes, deixando apenas o abajur da sala aceso e a lareira com pouco fogo, e voltou para o seu quarto.

Na casa de Ethel, ela se deitou preocupada com a amiga e continuava pensativa: "Tem alguma coisa de errado acontecendo com a Mildred... Ela jamais colocaria um estranho dentro de casa, mesmo ele sendo um garoto de rua. Eu conheço a minha velha amiga, e algo não está encaixando nessa história toda. Mas eu vou descobrir o que é, há se vou..."


22 de Dezembro de 2020

Na manhã do dia seguinte, Mildred resolveu levantar cedo e preparar um belo café da manhã com tudo o que Max tinha direito. Ela passou direto para a cozinha e, sem fazer barulho, começou a preparar tudo. A mesa ficou linda e farta: havia waffles com calda de morango, pão fresquinho da padaria da esquina, café passado na hora, queijo, presunto, suco de laranja, cereal, frutas, bolo de coco e, claro, chocolate quente extra cremoso, que não podia faltar.

Depois de ver a mesa arrumada e posta, satisfeita, ela foi acordar Max. Acendeu a luz da sala e, quando chegou perto do sofá, viu só Grace, sua gata siamesa, deitada sobre ele, e estranhou.

— Grace, sua fujona, o que você está fazendo aí? Vá já beber o seu leite na cozinha. Onde será que o Max se meteu? Já sei! Ele deve estar no banheiro.

Mildred foi até o banheiro e bateu na porta.

— Max, você está aí? O café está pronto e a mesa está posta... Max? Você está me ouvindo? Olha, eu estou entrando; se estiver fazendo alguma necessidade é melhor me dizer agora...

Mildred foi abrindo a porta devagar, com os olhos fechados.

— Max... Ué? Para onde será que ele foi? — se perguntou, decepcionada.

Mildred então saiu desesperada de casa e foi bater na de Ethel.

— Mas quem será que está batendo assim logo cedo? Ethel... Você acertou todos os nossos credores esse mês? — perguntou Leroy de dentro.

— Para de falar bobagem, Leroy. É claro que eu paguei todas as contas. E quando é que eu não pago, hein?

— Eu sei lá. Hoje em dia esse pessoal faz loucuras no natal por causa de dinheiro e acaba matando por qualquer ninharia.

— Volte a dormir, Leroy. Eu vou atender a porta.

— Cuidado! E qualquer coisa me chame.

— Sei... Não se preocupe, que eu sei me defender muito bem sozinha... Já vai.

Ethel então foi atender a porta e deu de cara com Mildred, desesperada.

— Mildred! O que foi, minha querida? — perguntou, preocupada.

— O Max sumiu. Eu acordei e fui preparar o café e, quando vi, ele não estava mais lá. Ele simplesmente desapareceu, Ethel... O Max foi embora — concluiu, impaciente e disfarçando o choro.

— Calma, Mildred. Você não pode ficar assim, minha querida... O que você esperava? Que ele continuasse morando na sua casa e dormindo no seu sofá? Ele é um garoto de rua, livre. Você não pode se preocupar tanto assim com ele, porque senão você vai acabar adoecendo, amiga. Me espera aqui; eu vou vestir o meu robe e vamos conversar na sua casa enquanto tomamos um chá de erva-cidreira, que é tiro e queda para acalmar os ânimos.


Mildred estava mais calma depois de ter bebido uma xícara do tal chá num único gole.

— O que está acontecendo com você, Mildred? Desde ontem, quando esse garoto apareceu, você está estranha, inquieta, aflita... Por quê? — perguntou Ethel, curiosa.

— Porque ele me lembra o Mike. O meu Mike, Ethel — disse, começando a chorar. — O mesmo olhar doce, o jeito meigo e irritado ao mesmo tempo, até a maneira de se portar... Já faz quinze anos que o Mike se foi e até hoje eu ainda não consegui superar a perda do meu filho caçula tão querido. E agora... Agora parece que ele está de volta, Ethel. Pelo menos é isso que eu vejo toda vez que olho para a carinha desse pobre garoto.

— Oh, minha amiga, eu te entendo de verdade. Mas aquele garoto não tem nada a ver com o Mike. Você se deixou envolver muito por ele. Tira isso da sua cabeça, por favor.

— Você não entende, mas tem razão. Que boba que eu fui... O melhor que eu tenho a fazer agora é esquecer essa história toda. Eu vou dar uma volta de carro por aí e tentar colocar a cabeça no lugar.

— Você quer que eu vá com você?

— Não, querida, não precisa. Mesmo assim, obrigada por se preocupar comigo.

— Você pode contar comigo sempre, Mildred... Sempre.

As duas então sorriram, cúmplices uma para a outra, e se abraçaram com carinho.


Mildred rodou quase a cidade toda em sua Ximbica por horas, mas nada de encontrar Max. Cansada, ela decidiu voltar para casa e, quando ia abrir a porta, Ethel a gritou — e, para sua surpresa, Max estava com ela.

— Max... Por onde você andou, meu querido? Eu estava preocupada com você — disse, abraçando-o bem forte. — Nunca mais faça isso, entendeu?

— Ele disse que foi dar uma volta por aí e que voltou para o café. Aí, como você tinha saído, ele bateu aqui e eu o convidei para entrar e te esperar. Nós batemos o maior papo, não foi, Max? — explicou Ethel, sorrindo.

— Sim. Eu gostei da senhora, mas o velho faz muitas perguntas. Parece até um delegado — disse ele, meio ranzinza.

Ethel e Mildred caíram na gargalhada.

— O Leroy? Não precisa se preocupar, Max. Ele é só um velho intrometido e rabugento mesmo — explicou Mildred. — Então vamos ao nosso café? A mesa está cheia de guloseimas só esperando por você. Obrigada, Ethel.

— Tchau, Ethel.

— Por nada, querida. Tchau, Max. Volte mais vezes.

— É, parece que a Mildred caiu mesmo de amores por esse garoto. Quer apostar quanto que ela ainda vai trazê-lo para morar com ela? — disse Leroy, entrando na sala e convicto do que estava falando.

— Mas disso eu não tenho dúvidas, Leroy. A Mildred se faz de durona, mas no fundo essa minha amiga tem um coração de ouro — disse Ethel, sorrindo.


— Nossa, que apetite, garoto! Gostei de ver como você é bom de garfo e sem frescuras para comer — observou Mildred, satisfeita.

— O que é "bom de garfo"? — perguntou, fazendo careta.

Mildred riu de ver a cara que ele fez, sem entender nada.

— "Bom de garfo" é uma expressão usada para quem come bem, tem um bom apetite. Meu pai costumava me dizer isso quando eu tinha mais ou menos a sua idade. Ele dizia assim: "Norah, minha querida, você conhece Mildred MaCluskey? Essa sim é boa de garfo." — concluiu, sorrindo. — Norah era minha mãe. Que saudades eu sinto deles.

— Eles morreram?

— Sim. Já tem um bom tempo. Eu amava os meus pais. Max, me diz uma coisa: como foi que você foi parar nas ruas? Você nunca teve uma família, ou um lar antes?

— Não. Pelo menos não que eu me lembre. Eu só tive o Duncan e a Rose, que também moram nas ruas, mas eles nunca foram legais comigo. Eles me obrigavam a pedir dinheiro e comida para pessoas nas ruas e nos supermercados. Mas agora o Duncan foi preso e eu consegui escapar da Rose. Eu nunca mais quero voltar a morar nas ruas. Eu sempre quis ter um lar, uma família, principalmente agora no natal — disse, com os olhos marejados.

— Oh, meu garoto... Tão jovem e já tão sofrido. Preste bem atenção: eu prometo a você que nunca mais você vai voltar a morar na rua, entendeu? Nunca mais — disse, dando um beijo terno no rosto do garoto. — E me responde uma coisa: quantos anos você tem, Max?

— Acho que dez, talvez... Pelo menos foi o que um médico me disse meses atrás, quando eu peguei uma gripe bem forte e eles tiveram que me levar na emergência — disse, evitando olhar para Mildred. Depois, mudou de assunto. — Senhora MaCluskey, será que eu posso lhe fazer uma pergunta também?

— Claro que sim, Max. Pode perguntar o que quiser.

— O que aconteceu com a família da senhora? É que ontem a senhora me disse que todos a abandonaram, e eu fiquei pensando: como eles puderam fazer isso com uma pessoa tão boa e tão generosa, com um coração enorme? O maior que eu já vi até hoje. É sério!

Mildred teve que se controlar naquele momento para não chorar, pois uma forte emoção tomou conta dela e, com a voz embargada, ela começou a dizer:

— Bem, saiba que por trás dessa velha de coração enorme, como você mesmo disse, também existe uma velha bem ranzinza e chata. Não se deixe enganar, viu, meu garoto... Eu fui casada por mais de quarenta anos com um bom homem, o Charles. Ele foi o melhor companheiro que uma mulher pode desejar ter na vida. Ele me acordava todas as manhãs me trazendo o café na cama e nunca se esquecia de colocar uma rosa colhida do nosso jardim dentro de um vasinho junto à bandeja. O Charles me levava para jantar fora e, depois, dançar aos sábados, e jamais se esquecia de alguma data importante, seja ela do nosso aniversário de casamento, do dia em que nos conhecemos, ou até mesmo do meu próprio aniversário... Ele sempre preparava uma surpresa, inventava uma comemoração e depois me surpreendia com um belo presente. Até que, numa manhã cinzenta de primavera, cansada de esperar pelo meu café da manhã na cama e ouvindo o apito da chaleira, eu me levantei e fui até a cozinha ver o que o Charles estava fazendo... E eu o encontrei sentado na cadeira perto do fogão, parado, estático. Eu ainda me lembro de ter brincado com ele: "Hei, meu velho, o que há com você? Será que já está surdo o suficiente a ponto de não ouvir o barulho da chaleira bem na sua orelha?" E passei por ele, tocando em seu ombro. Quando dei por mim, eu só ouvi um barulho e, quando olhei para trás, o meu Charles estava caído no chão... Imediatamente eu me joguei desesperada perto dele para sentir o seu pulso, mas já era tarde demais. Ele estava morto. E naquele dia, eu morri um pouco com ele e nunca mais fui à mesma Mildred desde então... E lá se vão quinze anos da sua morte.

— Eu sinto muito... Mas e os seus filhos? A senhora teve filhos, não teve?

— Tive sim, três... O Thomas e a Bree, que são os dois mais velhos, sempre foram do mundo. Bastou o pai morrer para eles irem embora, estudar e morar na cidade grande, querendo ser maiores ainda como pessoas. São egoístas e ambiciosos; só pensam neles mesmos. O Mike, o meu caçula, era o mais diferente dos três e também o mais parecido com o pai: carinhoso e apegado a mim.

— E onde ele está agora, senhora MaCluskey? — perguntou Max, curioso.

— Morando com o pai lá no céu. Ele foi vítima de um acidente no trânsito... Hoje está fazendo exatos oito anos que ele se foi...

Mildred, que até então estava se segurando, caiu em prantos, e Max a consolou, abraçando-a bem forte.

— Não fica assim, senhora MaCluskey... Eu prometo que jamais irei abandonar a senhora. Isso, se a senhora me quiser por perto, é claro — disse, tímido.

— É tudo o que eu mais quero, Max. E, se você também quiser, eu te adoto legalmente e você vem morar de vez comigo. O que me diz? Você aceita? — perguntou, esperançosa.

— Aceito. Mas tem uma condição...

— Qual? — indagou, surpresa.

— Eu vi como a casa da Ethel está linda e toda enfeitada para o natal, e disse a ela que a senhora ainda não tinha nem uma árvore de natal decorada aqui na sua sala... Aí ela me disse que, depois que a senhora ficou sozinha, o natal perdeu a graça para você e que nunca mais o comemorou... E o meu maior sonho é poder encontrar um lar e ter um típico natal em família todos os anos, com árvore enfeitada, meias penduradas na lareira, uma ceia... Será que a senhora aceitaria trazer o natal de volta para dentro dessa casa, senhora MaCluskey?

— Mas é claro que sim! Eu faço tudo para te ver feliz e, acredite, eu já estou até animada de novo com o natal e pensando em mil coisas para fazer — disse, toda sorridente.

— Yes! — comemorou ele.

— Que bom! Valeu a pena ter esperado todos esses anos para finalmente viver a magia do natal. E nós temos que já começar pela árvore; afinal de contas, o natal já é daqui a quatro dias — lembrou, animado.

— Tem razão. Eu vou apanhar a minha bolsa e as chaves do carro e nós vamos sair para escolher um lindo pinheiro agora mesmo. Depois passamos em uma loja e compramos todos os enfeites e as luzes — disse Mildred.

Naquela tarde e também em grande parte da noite, Mildred e Max passaram o tempo decorando a árvore. Até que, finalmente, eles puderam apagar as luzes e se sentar no tapete da sala, de frente para a árvore já decorada. Juntos, ficaram apreciando as luzinhas coloridas piscando. E foi então que Mildred contou para Max a história do menino Jesus.


23 de Dezembro de 2020

Ethel foi logo cedo ver a árvore de natal de Mildred e Max. O próprio garoto foi bater em sua porta, chamando-a para ver a novidade, depois que ele e Mildred chegaram da rua com as compras para a ceia do natal. Ela, ainda incrédula, foi na mesma hora.

— Está linda, Max! Foi você mesmo quem decorou? — perguntou, olhando para Mildred, que não parava de olhar para o menino com os olhos brilhando.

— Sim, eu e a senhora MaCluskey a decoramos juntos — disse, todo orgulhoso. — E tem mais: nós vamos fazer uma deliciosa ceia de natal.

— Mas que ótima notícia! E meus parabéns! Vocês fizeram um belo trabalho.

Max então se distraiu com a árvore, enquanto Ethel se aproximou de Mildred.

— Que novidade é essa? Quer dizer então que vamos voltar a celebrar o natal aqui nessa casa?

— E por que não? É tudo o que o Max mais quer e, com ele aqui, eu me animei de novo. Você acredita que ele nunca teve um natal em família? Pobrezinho... Ele não sai de perto dessa árvore desde que nós a decoramos — disse, sorrindo. — Ah, Ethel, antes que eu me esqueça... Esse ano eu não vou poder participar do natal na sua casa porque eu irei oferecer aqui mesmo a minha própria ceia, e gostaria que você e o Leroy viessem para cá passar conosco. Então, eu posso contar com a presença de vocês?

— Oh, minha querida, me desculpa, mas nós não podemos aceitar — disse Ethel, com pesar.

— E por que não? Justo agora que eu resolvi voltar a comemorar o natal? Quando eu fazia aqui em casa, você e o Leroy vinham todos os anos, nós fazíamos a maior festa. Você se lembra?

— E como eu poderia esquecer... Os natais aqui na sua casa eram inesquecíveis, apesar das suas brigas com o Leroy. Eu adorava ouvir o Charles contar suas histórias; era tão bom. Tempos que não voltam mais... Mas enfim, o Leroy aceitou um convite esse ano para passar na casa da irmã dele. A gente nunca aceita, e esse ano decidimos dar essa alegria para ela. Mas você pode vir conosco, se quiser — disse Ethel, mais animada.

— Não. Nem pensar! É o meu primeiro natal com o Max, e depois, se o Leroy, que é homem, já é chato assim, imagina só a irmã dele... Nós nunca passamos um natal longe uma da outra. É como dizem: para tudo há uma primeira vez na vida, não é mesmo? Ainda bem que agora eu tenho o Max — disse, cabisbaixa.

— Também não é assim, Mildred. Nós podemos passar a virada do ano todos juntos. Eu sinto muito, amiga... Olha só: você não acha que está se apegando demais a esse garoto? Eu falo isso pelo seu bem, querida. Eu me preocupo com você.

— Pois não se preocupe, porque, apesar de estar bem velhinha, eu ainda sei me virar muito bem. E depois é melhor que você saiba logo de uma vez... Eu decidi que vou adotar o Max. Eu vou criá-lo como meu filho — disse, de supetão.

— Bom, eu sempre te apoiei e agora não vai ser diferente. Se é isso mesmo que você quer, minha amiga, vá em frente. Eu te dou todo o meu apoio.

— Que bom. Eu sabia que podia contar com você, minha amiga — disse Mildred, olhando para Ethel, e as duas sorriram com um olhar cúmplice e sincero.


Leroy havia acabado de sair da padaria com leite e pão quentinho quando se deparou com um papel pregado em vários locais da cidade, estampando a foto de um garotinho e os seguintes dizeres: Procura-se! Ele pareceu não acreditar no que estava vendo e, imediatamente, arrancou um papel que estava pregado num poste elétrico e o guardou no bolso, indo logo em seguida, apressado, para casa.

— A minha Ethel precisa ver isso agora mesmo.


Leroy chegou em casa quase sem fôlego e batendo a porta.

— Leroy, é você? — perguntou Ethel, indo até a sala. — Por que tanta pressa? Eu ainda nem passei o café. Olhe para você, homem: está branco, ofegante e suando. Parece até que viu um fantasma. O que foi que aconteceu? Calma, respire fundo... Eu vou pegar um copo d'água para você.

Ethel correu até a cozinha e, num instante, voltou trazendo a água para Leroy, que mal estava conseguindo falar, e entregou para ele, que bebeu tudo num único gole.

— Agora, devagar, me conte o que aconteceu. Você está me deixando preocupada.

Leroy então tirou o papel que estava dobrado em seu bolso e entregou para a esposa.

— Eu estava saindo da padaria quando me deparei com um monte desses espalhados pelas ruas. Olha e me diga se reconhece esse garoto.

Ethel pegou o papel e, quando olhou para a foto, ficou perplexa.

— Meu Deus... Mildred! — exclamou, levando a mão até a boca e arregalando os olhos.


Mildred levou o maior susto quando começaram a bater na sua porta com toda força. Ela desligou o fogo e foi ver quem era.

— Já vai... Se derrubar a minha porta vai ter que me dar outra novinha no lugar, e mais reforçada. Parece até que vai tirar o pai da forca, meu Deus. Ethel? — disse, surpresa. — Mas o que foi que aconteceu para você espancar a minha porta desse jeito?

Ethel permaneceu branca e sem falar nada.

— Fala, mulher! — gritou Mildred.

— O Max... Onde está o Max?

— No banho. Ele acabou de entrar. Por quê?

— Porque ele mentiu sobre a história dele para você, Mildred. Olha... O Leroy viu isso espalhado por todas as ruas da cidade quando ele voltava da padaria — disse, entregando o papel para ela.

— Do que você está falando... O Leroy? Olha só, Ethel: se você disse que me apoiaria só para me agradar e agora voltou atrás, eu não vou te perdoar por isso. Você está me ouvindo?

— Só olhe para esse papel e leia, que você vai entender tudo, Mildred. Por favor! — insistiu Ethel.

Mildred colocou os óculos que estavam em cima da mesinha e, em seguida, começou a ler o que estava escrito no papel:

"Procura-se: Maximilian Scott, garoto de dez anos que reside no Lar para Menores de Saint Jones. O menino, mais conhecido como Max, fugiu há mais de uma semana do abrigo e, até o momento, ninguém sabe do seu paradeiro. Qualquer informação, por favor, contatar a senhora Cristina Pellegrino, diretora do abrigo."

Mildred então voltou a si, sem reação e com os olhos marejados.

— Mildred, você está bem, minha querida? Mildred... Fala comigo, por favor — dizia Ethel, preocupada. — O que você vai fazer agora?

Mildred respirou fundo e depois respondeu devagar:

— Por favor, Ethel, vai embora. Eu preciso ficar sozinha agora.

— Mas o que você vai fazer, amiga?

— O que tem que ser feito. Agora, por favor, vá embora e me deixe sozinha.

Ethel não insistiu e saiu arrasada da casa da amiga, agora pensando se realmente deveria ter entregado aquele papel para Mildred ou não.

Mildred, devagar e desolada, foi até o telefone e, retirando-o do gancho, começou a discar, olhando para o número no papel.


Max havia saído do banho e estava todo cheiroso e limpinho, sentado no chão da sala e olhando para a árvore de natal, enquanto tomava o seu chocolate quente. Mildred o olhava de longe, com o coração apertado, se segurando para não chorar. Até que a campainha tocou e ela foi atender a porta.

— Com licença. Senhora MaCluskey? Eu sou Cristina Pellegrino. Nós nos falamos pelo telefone.

— Sim. Por favor, pode entrar — disse, séria.

A mulher, que devia ter aproximadamente uns quarenta anos, entrou olhando tudo à sua volta e depois viu Max sentado de costas para ela no chão da sala.

— Max? Como vai, garoto fujão? — indagou, sorrindo.

Max olhou para trás, assustado, e imediatamente se levantou e correu para se esconder atrás de Mildred.

— Está tudo bem, Max. Eu vi um retrato seu num desses folhetos na rua. Você estava sendo procurado há mais de uma semana. Por que você não me disse a verdade? Eu pensei que confiasse em mim.

— Eu confio, senhora MaCluskey. Eu só não queria voltar para aquele orfanato — explicou, em meio às lágrimas.

— Mas por quê? Por acaso você não é bem tratado lá?

— Ele é, sim, assim como todos os outros garotos que moram no Lar Saint Jones — interveio a senhora Pellegrino. — O problema é que o Max é o garoto mais velho de lá. Ele fez dez anos no mês passado e, até hoje, nunca foi adotado. Ele morre de vergonha por isso e sempre fica muito frustrado quando novos casais aparecem e acabam levando outro garoto mais novo para casa, e não ele. Infelizmente, é a preferência de todos quando querem adotar uma criança: que ela seja bem novinha ainda. O Max também teme completar dezoito anos no lar, que é a idade limite permitida, e ter que ir embora sem ainda ter encontrado uma família para ele.

— Mas ele encontrou. Ele tem a mim agora, e eu estou disposta a adotá-lo — disse Mildred, categórica.

— Senhora MaCluskey, eu admiro muito o seu gesto, mas, para ser sincera, é quase impossível que qualquer juiz concorde em que um menino de dez anos seja adotado por uma senhora já idosa. Me desculpe, mas é a lei — disse Pellegrino, com pesar.

— Mas e o que eu quero? Não conta não? Eu quero ficar com a senhora MaCluskey! Que, desde que me conheceu, me deu carinho, amor e cuidou de mim como uma mãe... A mãe que eu nunca tive e com a qual eu sempre sonhei. Eu não quero ir embora — disse Max, decidido. — Por favor, não deixa eles me levarem, senhora MaCluskey!

— Infelizmente não é assim que as coisas funcionam, Max. Nós teríamos que entrar com o pedido de adoção ao juizado de menores e eles julgariam o caso, que pode ser favorável ou não. E, independente da decisão deles, você está disposto a arriscar caso vocês percam?

— Eu estou, se a senhora MaCluskey também estiver.

— Pois pode contar comigo, que eu também estou dentro. E nós vamos conseguir, eu tenho certeza disso. Deus há de nos abençoar — disse, sorrindo e abraçando-o.

— Tudo bem. Eu vou ver o que posso fazer. Mas agora você tem que vir comigo, Max... Vamos?

— Eu não posso. Nós vamos preparar uma ceia de natal amanhã. Era o nosso primeiro natal em família — disse, quase chorando.

— Eu sinto muito, mas é assim que tem que ser, Max. Eu sou responsável por você, e te prometo que vou tentar de tudo para que você seja adotado pela senhora MaCluskey. Mas agora você tem que vir comigo.

— Vai com ela, Max. Você já é um rapazinho corajoso. E, depois, eu tenho certeza de que nós vamos conseguir e teremos muitos natais ainda pela frente para passarmos juntos.

— A senhora promete?

— Prometo sim, meu filho!

Mildred e Max se despediram com um aperto nos corações, chorando. Logo em seguida, ele foi com a senhora Pellegrino, e Mildred os acompanhou até o carro lá fora.

Ethel viu tudo da janela e percebeu Mildred entrando, arrasada. Ela tentou ligar para a amiga várias vezes; porém, Mildred não atendeu e passou a noite no sofá, agarrada ao cobertor de Max, olhando para a árvore de natal e aos prantos.

— É... Parece que mais uma vez o natal acabou para mim — refletiu, voltando a chorar copiosamente.


24 de Dezembro de 2020 — Véspera de Natal

Amanhecera nevando em Woods Hole na véspera de natal. Mildred ainda não conseguira sair do sofá, mas, depois de muito pensar, ela decidiu se mexer e foi até a cozinha. Tudo estava quase preparado para a ceia: o peru temperado havia marinado durante toda a noite na geladeira, enquanto Mildred deixara os pães já cortados na cesta para a rabanada, e o manjar de coco já estava firme, só esperando para ser retirado da forma e banhado pela calda de ameixa. O resto ela faria tudo na hora. Mas só depois é que ela se lembrou que Max não estava mais lá, e que nem Ethel e Leroy passariam o natal com ela.

Nervosa, num impulso, Mildred pegou a cesta de pães e ameaçou jogá-los todos no lixo, assim como toda a ceia. Depois ela pensou melhor e acabou desistindo.

— Não importa como vai ser... Esse natal vai acontecer de qualquer jeito! — disse, decidida. — Nem que eu tenha que levar toda a ceia até o lar para oferecer ao Max e seus amiguinhos. É isso aí, Mildred MaCluskey... Você tem uma ceia de natal para preparar e ela vai ser a melhor de todas que você já fez na sua vida.

Ethel ainda tentou se despedir de Mildred, mas a amiga não quis lhe atender. Ethel entendeu que ela devia estar muito chateada com ela por tudo. E, com o coração na mão, ela e Leroy partiram para a casa da cunhada, a quatrocentos quilômetros dali. Ethel foi olhando para trás o tempo todo e chorando, e, numa das vezes em que olhou, ela teve a nítida impressão de ter visto Mildred na janela.


No Lar Saint Jones, Cristina havia acabado de chegar do juizado de menores e foi direto falar com Max, que estava amuado num canto do pátio e não queria brincar nem falar com ninguém.

— Oi, Max. Eu fui falar com o juiz que vai cuidar do seu caso, e ele veio pessoalmente dar uma palavrinha com você. Vamos lá?

Max olhou para a diretora, desanimado, e depois se levantou, seguindo-a.


Mais tarde, na estrada, Ethel ia se lamentando o tempo todo e Leroy já estava ficando de saco cheio.

— Só de pensar que, a essa hora, a Mildred já deve ter começado a preparar a ceia, chega a me dar água na boca. Lembra daquele peru que só ela sabe fazer, com aquele tempero de ervas finas? É melhor eu mudar de assunto... E tem também o manjar de coco, que deveria se chamar mesmo "manjar dos deuses", de tão maravilhoso que é.

— Assim não dá, Ethel! Você vai ficar a viagem toda se lembrando da Mildred e da ceia de natal dela? — perguntou, impaciente.

— Me desculpa, querido, mas é quase impossível não se lembrar. A Mildred é minha melhor amiga; nós sempre fomos como irmãs. E também nunca passamos o natal longe uma da outra, desde que nos conhecemos — disse, começando a chorar.

— Ah não, Ethel, por favor. São só dois dias... Você não vai morrer se ficar longe daquela velha rabugenta.

— Não fala assim da minha amiga...

— Ethel... Ethel! Para de chorar agora, ou eu vou enlouquecer e acabar batendo com o carro...

De repente, Leroy virou o carro com tudo, num rompante, dando a volta na pista e começando a fazer o caminho de volta para casa.

— Mas o que você está fazendo, Leroy? — perguntou, surpresa.

— Dando o que você quer... Voltando para Woods Hole. Nós vamos passar o natal na casa da Mildred. Satisfeita agora? Eu só quero ver a bela desculpa que terei de inventar para a minha irmã, que vai ficar mais um natal esperando por mim.

— Eu não acredito... O meu Leroy — disse, fazendo um carinho no rosto dele.

— Não precisa ficar fazendo carinho agora. Você acha mesmo que eu decidi voltar por sua causa ou por causa daquela velha chata? Eu estou voltando mesmo é por causa do peru — disse, dando uma longa gargalhada, seguido por Ethel.

— Eu sabia que, no fundo, você amava o peru que a Mildred prepara, meu querido...

— Mas se você contar para ela, eu nego até a morte, ouviu bem?

— Claro, pode deixar. Será o nosso segredo — disse, sorrindo. — Mas e a sua irmã, Leroy? Será que ela vai entender?

— Que remédio... E depois, eu não estava mesmo a fim de ir passar o natal com eles. A família do marido dela são todos uns chatos, como ele mesmo. Assim que chegarmos em casa eu ligo para ela e invento alguma desculpa. Não se preocupe.

— Então agora acelera, meu amor, porque eu quero chegar a tempo de ajudar a Mildred com a ceia. Eu só espero que ela não tenha resolvido cancelar tudo por causa do Max... Pobre garoto.

— Pode deixar. Se chegarmos a tempo, você ainda pode convencê-la a preparar a ceia. Se segura, Ethel, porque o Leroy, velho de guerra, aqui vai pisar fundo.


Mildred havia acabado de tirar o peru do forno. Era apenas o que faltava para completar a mesa e a ceia de natal. Estava tudo muito bonito e cheiroso. Eram dez horas da noite e logo seria o natal. Mildred estava pensativa e triste quando, de repente, viu o clarão de faróis lá fora através da janela — provavelmente era um carro sendo estacionado. E não demorou muito para que a campainha tocasse.

— Ué... Mas quem será a uma hora dessas? — pensou Mildred, e depois foi logo abrir a porta, dando de cara com Ethel e Leroy, sorrindo para ela.

— Eu devo estar ficando velha mesmo, porque até coisas já ando vendo... Eu vejo um velho chato e rabugento na minha frente, junto com uma senhora que dizia ser minha amiga, mas que me abandonou em pleno natal. Definitivamente, eu preciso de óculos novos e urgente.

— Deixa de ser engraçadinha, Mildred. Eu dirigi o carro por mais de quatro horas sentado. A minha coluna chega a estar me matando. Você não vai nos convidar para entrar? — perguntou Leroy, impaciente.

— E eu tenho escolha? Você sempre acaba vindo pelo cheiro do meu peru mesmo. Vamos, entre. Mas, por favor, não fique tão à vontade. Se eu der muita liberdade, ele acaba se deitando no meu sofá.

Leroy passou por ela, fazendo careta, e foi se sentar no sofá.

— Sabe como homem é, né? Ainda mais velho: se a gente diz para ficar à vontade, então estamos perdidas — disse Mildred, rindo.

— Vem cá, sua desnaturada, dar um abraço na sua velha amiga. Que saudades, Ethel. Que bom que vocês voltaram.

— Foi o Leroy que resolveu voltar, do nada. Ele até me surpreendeu — explicou Ethel.

— Eu não sei de nada. E também eu não estava mais aguentando você choramingar a viagem inteira por causa da Mildred.

— Também não precisa exagerar. Eu só falei que sentia saudades dela...

— Vamos parar agora, que daqui a pouco é natal e eu quero paz e poder ver os fogos lá fora. Portanto, vamos à mesa, que é hora da ceia.

Mildred os conduziu até a mesa, mas logo a campainha tocou novamente, e ela mesma, a contragosto, foi atender a porta.

— Boa noite, senhora MaCluskey. Eu sou Cristina Pellegrino, diretora do Lar Saint Jones.

— Sim, eu me lembro de você. Aconteceu alguma coisa com o Max? — perguntou, preocupada.

— Não. Está tudo bem com ele. Eu só vim lhe trazer uma boa notícia... Eu conversei com o juiz que vai cuidar do caso do Max, e ele concordou em dar a guarda provisória do Max para a senhora durante três meses, para ver como vocês dois se saem juntos. Aí, depois, ele dará a decisão final.

— Mas isso é ótimo! É a melhor notícia que eu poderia ter recebido hoje, na noite de natal, e também o melhor presente que eu poderia ter ganhado — disse, emocionada.

Ethel, que ouvia tudo, foi até a amiga e abraçou Mildred, também emocionada.

— E isso não é tudo, senhora MaCluskey... Eu tenho uma surpresa para a senhora.

— Vem, pode entrar... Max.

— Max? O meu Max? — perguntou Mildred, emocionada, e chorou ao ver o garoto entrando pela porta com a sua mala.

Ela se ajoelhou na frente dele e ele abraçou Mildred bem apertado.

— Eu disse para o juiz que queria ficar com você, que você era a melhor pessoa do mundo! E ele me prometeu que nós vamos ficar juntos, senhora MaCluskey... Ele até deu à senhora a minha guarda provisória. Olha — disse, entregando o papel para ela, que olhou para a diretora.

— É verdade. Como eu disse, esse documento dá à senhora a guarda provisória do Max até a audiência definitiva. O Max soube ser bem convincente com o juiz e ganhou ele na lábia. Ainda é muito cedo para dizer, mas eu tenho quase certeza de que essa causa já está ganha. Bom, eu já vou indo agora. Eu tenho que terminar de organizar a ceia para os meninos do lar. Boa noite a todos e um feliz natal — disse, sorrindo.

— Obrigada, senhora Pellegrino, e Feliz Natal!

— Tchau, Max. Se comporte e seja um bom menino. Feliz Natal.

— Eu serei, senhora Pellegrino. Prometo. Obrigado por tudo e Feliz Natal.

Depois que a senhora Pellegrino foi embora, todos se abraçaram, emocionados. Até Mildred abraçou Leroy, que chorava feito uma criança. Depois, eles se sentaram à mesa e comeram felizes e satisfeitos a deliciosa ceia preparada com tanto carinho por Mildred.

E quando eles menos esperavam, a magia do natal aconteceu — e, com ela, os fogos começaram a iluminar o céu de Woods Hole, trazendo o natal e o nascimento do menino Jesus para todas as famílias. Max saiu correndo para fora e ficou encantado, olhando para o céu. Mildred, Ethel e Leroy saíram também e, juntos, se abraçavam, desejando um ao outro um Feliz Natal.

Mildred então foi até Max e pegou na mão do garoto. Ambos se olharam, felizes e emocionados.

— Feliz Natal, senhora MaC... Mãe — disse ele, de supetão.

— Feliz Natal, Max, meu filho... Essa é uma das noites mais felizes de toda a minha vida — disse, nostálgica.

— E para mim, essa é a primeira Noite Feliz da minha vida — disse Max, sorrindo.

— A primeira de muitas, pode apostar — disse ela, sorrindo.

Os dois então voltaram a se abraçar e depois ficaram juntinhos, vendo os fogos brilharem no céu.

Naquela noite, Mildred aprendeu uma valorosa lição: a de que, muitas vezes, a vida pode nos surpreender e fazer com que voltemos a acreditar nela e nas pessoas de novo. E Max também aprendeu que, melhor do que ter vários presentes embaixo de uma árvore de natal, é ter o amor, o carinho e a presença de uma família feliz.

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Cap. 1 Vinte e Quatro de Dezembro Cap. 2 Noite Feliz Cap. 3 Estéfany Cap. 4 Numa Noite de Natal Cap. 5 Uma Aventura de Natal Cap. 6 Amigo oculto Cap. 7 O Natal não está perdido NOVO
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