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A Dinastia Perpétua
Capítulo 12 de 12
Episódio 1
✍️ Guilhardo Almeida ·📅 10 Jun. 2026 ·👁 4 leituras

1 EXT. TERMINAL RODOVIÁRIO DE PÉTALAS - SP. DIA 1

A imagem abre em um céu azul, forte e intenso. Toda essa intensidade é provocada pelo forte calor da região.

Fachada do Terminal Rodoviário. Ninguém está por ali, aquela rodoviária está quase abandonada, mas eis que um ônibus começa a chegar e se aproxima do local de parada.

O ônibus para e umas duas pessoas começam a descer, estão um pouco afobadas, mas sem muito barulho. Até que DANIEL desce do ônibus.

LETREIRO: "2020, PÉTALAS - SÃO PAULO".

Daniel, um rapaz alto, pardo, com um porte de atleta. O rapaz está com um curativo na testa, uma mochila nas costas, uns ferimentos no braço, a roupa amassada e um boné para se proteger do sol. Ele respira fundo e se aproxima em um dos banheiros.

2 INT. BANHEIRO MASCULINO - DIA 2

SLOW MOTION: A água cai da bica da torneira, em seguida, Daniel junta as suas duas mãos, enche de água e joga em seu rosto. Daniel desce seu rosto para fora da imagem. VOLTA À CENA.

Daniel volta a se olhar no espelho e com o rosto úmido. Ele dá um pequeno sorriso sarcástico.

DANIEL

Mesmo ferido e prejudicado, cê ainda continua com um belo rosto, hein rapaz?!

No sorriso de Daniel. O sorriso é desfeito após o som de uma notificação do seu celular. Daniel bufa e pega o seu celular no bolso da calça. Ele liga o celular e vai até a notificação que é uma mensagem. Daniel abre a mensagem e começa a ler.

NO CELULAR: "Já chegou?" VOLTA À CENA.

Daniel respira fundo, encara seu reflexo no espelho e sorri determinado.

3 EXT. ASFALTO - DIA 3

Temos um asfalto que já está um pouco passado, alguns buracos, mas nada que seja prejudicial para quem transita por ali.

Uma moto passa por toda velocidade e levanta poeira, páginas de jornais e folhas mortas. Uma dessas páginas de jornais, vai parar em uma placa grande, porém, judiada.

Um rápido vento bate nessa placa e leva a página de jornal para longe. Sendo assim, revelando o que está escrito na placa: "SEJA BEM VINDO A PÉTALAS."

4 EXT. POSTO DE GASOLINA - DIA 4

Pouco menos de dois quilômetros depois, essa mesma moto se aproxima do posto de gasolina. Aos poucos, vamos admirando essa moto, até que o motoqueiro sai de cima da moto e retira o seu capacete. Enfim, conhecemos o motoqueiro, ou melhor, reconhecemos.

Trata-se de DANTE, um rapaz já conhecido desse universo, que agora está com os seus 22 anos, alto, forte, cabelos ricos em cachos e pardo. Dante sorri confiante e se aproxima do posto. Dante está com uma mochila nas costas.

Nesse estabelecimento, trabalham dois frentistas. Dante vai até o frentista mais perto.

DANTE

E aí, mano?! Boa tarde!

FRENTISTA #1

Tarde... Do que cê precisa?

DANTE

Bem... Eu queria uma informação. É sobre uma pessoa que mora aqui. Será que tem como cê me ajudar?

Na paciência e esperança de Dante.

5 EXT. RUAS - DIA 5

SONOPLASTIA: "LADY GAGA - A-YO".

É uma cidade simples e pequena, mas bastante limpa e civilizada. Com muitos arranjos de flores e rosas por todo o lado. As flores dominam aquele lugar.

SONOPLASTIA CESSA.

Carros, motos e pessoas andam de um lado para o outro, mas sem muita correria. É uma cidade bastante simpática, apesar das histórias que ela guarda.

LETREIRO: "2021, PÉTALAS - SÃO PAULO."

6 EXT. FLORICULTURA DALES MAIS - DIA 6

Tomada da fachada da floricultura. Uma entrada muito bonita e charmosa. Temos muitas flores e uma grande placa. Nela está escrito: "Floricultura Dales Mais".

7 INT. FLORICULTURA DALES MAIS - RECEPÇÃO - DIA 7

Uma recepção bem ampla e florida, com os mais diversos arranjos, além dos mais variados tipos de flores. É tudo muito bonito e organizado.

Dante se aproxima de um dos arranjos de rosas amarelas e exibe um sorriso para elas.

DANTE

São tão lindas e perfumadas. Eu/

CLANESSA (O.S)

E não são só as amarelas.

Dante se surpreende e vira-se para frente. CLANESSA, uma jovem negra, com seus 29 anos, magra e alta. Ela vai se aproximando de Dante. Ambos trocam sorrisos. O clima é bom entre eles.

DANTE

(sem jeito)

Desculpe, eu/

CLANESSA

Imagine, não tem o que se desculpar, pode ficar à vontade. Deseja algum arranjo? Tem algum tipo de rosas preferidas?

DANTE

Apesar de eu ter vindo aqui por outro motivo, eu tô bastante impressionado com todas essas flores. É um trabalho incrível que fazem nessa floricultura.

CLANESSA

Eu fico agradecida pelos elogios, mas não é apenas aqui. A cidade toda tem um respeito muito grande pelas flores. Afinal de contas, é a principal fonte de negócio de Pétalas.

DANTE

(interessado)

Eu não podia imaginar.

CLANESSA

Flores é um ramo que sempre deu certo.

(se atenta em Dante)

Vocês da cidade grande que não tem mais tempo de apreciar um belo buquê de flores.

DANTE

Confesso que sempre gostei de flores, mas se te contasse os últimos acontecimentos na minha vida, eu nem tinha tempo nem de reparar em rosas.

Os dois trocam sorrisos tímidos. Um certo clima surge entre eles.

CLANESSA

Enfim, o que é que você veio procurar por aqui mesmo?

DANTE

Bem... Eu queria saber de uma informação sobre uma pessoa. Eu cheguei a perguntar aos frentistas de um posto que fica na entrada na cidade, mas eles não souberam me responder e falaram para eu perguntar aqui.

CLANESSA

Olha... Como é o seu nome mesmo?

DANTE

Ah, eu me esqueci de me apresentar, eu me chamo Dante.

Dante ergue sua mão para cumprimentar Clanessa.

CLANESSA

(cumprimentando)

Prazer, Dante! Eu me chamo Clanessa.

(P)

Continuando a prosa. Se a pessoa que você tiver procurando ainda estiver morando aqui, provavelmente, eu deva saber. Afinal, aqui é uma cidade pequena. Todo mundo conhece quase todo mundo.

DANTE

Como toda cidade pequena.

CLANESSA

De fato!

(SORRI)

Mas como se chama a pessoa que você está procurando?

DANTE

Daniel... O nome dele é Daniel!

Em Dante, determinado e confiante.

8 EXT. FAZENDA DALES - DIA 8

A fazenda dos Dales ainda continua intacta e bem conservada. Existem algumas plantações de alimentos e frutas, mas o foco da fazenda são as plantações e cultivos das flores.

Existem muitos roseirais por ali, pessoas trabalhando nelas e muitas rosas sendo cultivadas.

Panorama da sede da Fazenda. A sede segue conservada, com uma boa pintura e bem arejada.

CATARINA (V.O)

Não podemos esquecer nada para esse jantar especial, Ivanilda. Quero os detalhes todos acertados.

IVANILDA (V.O)

Perfeitamente, Dona Catarina, mas...

9 INT. FAZENDA DALES - SEDE - CORREDOR - DIA 9

IVANILDA, uma mulher com os seus 50 anos, cabelos pretos, não muito alta, mas nada baixinha, branca e encorpada. Ela conversa com Catarina, que está de costas para ela.

IVANILDA

E os tapetes italianos? A senhora tinha me dito que pretendia usá-los em casa no dia do jantar. Só não os encontro em algum lugar.

CATARINA (O.S)

Como não mulher? Esqueceu que eles estão lá no porão?

IVANILDA

No porão?

CATARINA, com os seus incríveis 71 anos de idade, branca, alta, cabelos loiros e alguns fios brancos com pretos. Ela envelheceu muito bem nesses últimos cinquenta anos.

Ela vira-se para Ivanilda, sorridente e simpática, como sempre foi.

CATARINA

Exatamente!

No sorriso de Catarina.

10 INT. FAZENDA DALES - SEDE - PORÃO - DIA 10

Na escuridão do local, Ivanilda e Catarina vão descendo as escadas e chegam no local. Catarina passa a mão no interruptor e acende a luz.

Assim que o porão é iluminado, podemos constatar que ele está bem conservado, algumas caixas e armários por ali.

Existem alguns lugares cheios de teias de aranha, mas outros lugares seguem limpos.

Ivanilda e Catarina andam pelo porão e o observam por completo.

IVANILDA

Não imaginava que a senhora guardava aqueles tapetes tão importantes aqui.

CATARINA

Desde a morte do Arthur que eu guardo eles por aqui. Foi um presente dado a nós um dia antes de morrer.

IVANILDA

E que já fazem vinte e cinco anos, desde que o Dr. Arthur se foi.

CATARINA

(sentimental)

Verdade... Foi um dia muito difícil pra mim, na verdade, um dia muito difícil para toda a família, mas particularmente pra mim.

Ivanilda procura nos móveis pelos tapetes.

IVANILDA

Um dia depois do enterro do Dr. Arthur, a menina Venância sumiu, não é mesmo?

CATARINA

Sim, Ivanilda. E apesar de terem os meus outros dois filhos aqui comigo, a falta que essa menina me faz... Por isso eu nem comento tanto, deixo esse ressentimento pra mim, mas sinto que a minha filha precisa de mim.

IVANILDA

Com certeza a Venâncinha já tá crescida, igual o Rodrigo e a Stela.

CATARINA

E desde quando filho crescido é sinônimo de maturidade e fim de problemas? Muito pelo contrário. Cê não vê aí a Stela, sempre com alguma questão. E o Rodrigo? Quando não é problema com a empresa, é com aquela mulher arrogante dele.

IVANILDA

Isso eu vou ter que concordar com a senhora.

CATARINA

Criar filho pra gente é fácil, o problema é quando eles querem ir pro mundo. Isso sim... Isso é complicado.

(desconversa)

Enfim, vamos parar de fofoca e focar no trabalho. Cadê esses benditos tapetes?

As duas soltam risadas descontraídas.

Ivanilda abre uma das gavetas com um pouco mais de força. Ela acaba deixando uma caixa pequena de madeira cair no chão.

Ivanilda se preocupa e Catarina fica sem jeito.

IVANILDA

Perdão, Dona Catarina. Eu fui muito desastrada, sou toda sem jeito.

CATARINA

Não se preocupe, mulher.

(P)

Vai chamar o Alfredo pra te ajudar com esses tapetes.

IVANILDA

Pode deixar, com licença.

CATARINA

Toda!

Ivanilda sai dali e sobe as escadas.

Em Catarina. Ela se abaixa e pega a caixa de madeira. Ela abre a caixa de madeira.

SONOPLASTIA: LUÍSA SONZA - ONDE É QUE DEU ERRADO?

Na caixa de madeira, temos fotos antigas, cartas rasuradas, objetos guardados e muita poeira.

CATARINA

(sussurra)

Faz tantos anos que eu não vejo você, que eu não recordo esse maldito passado, mas que nunca deixou de ser presente.

Catarina fecha a caixa, se levanta do chão e sai dali com a caixa em mãos.

11 EXT. ZONA RURAL - DIA 11

SONOPLASTIA SEGUE.

Takes de pastos, terrenos, animais, rios, enfim, a natureza enriquecendo a narrativa.

12 EXT. CASARÃO CANDARNOS - FACHADA - DIA 12

Tomada rápida.

SONOPLASTIA: CESSA.

13 INT. CASARÃO CANDARNOS - SALA DE ESTAR - DIA 13

O casarão da família Candarnos está ainda mais bonito. Com móveis atuais, mas mantendo uma decoração mais clássica.

Na parede, alguns quadros de Julieta, Emílio, Evandro e Eliseu, os irmãos envelhecidos.

Além disso, temos uma grande escada e é nela que vem descendo EMÍLIO, com seus 73 anos, alto, com todos os seus cabelos brancos, forte e parrudo, junto a ele, ELISEU, com seus 75 anos, cabelos grisalhos, mas com fios pretos, com um pouco mais de barriga, ambos sem barba.

Eles descem as escadas e a conversa vai rolando.

ELISEU

A última safra de rosas amarelas foi vendida com sucesso.

EMÍLIO

Não esqueceu de trazer alguns arranjos pra cá, né?!

ELISEU

Claro, Emílio!

Os dois chegam à sala de estar e se direcionam ao escritório.

— ESCRITÓRIO —

Emílio senta em sua cadeira e encara Eliseu, que está de pé.

ELISEU

Eu sei bem o quanto você é fascinado em rosas amarelas. O passado ainda te perturba.

EMÍLIO

O que está insinuando, Eliseu?

ELISEU

Pra mim você não precisa mentir. A Catarina nunca saiu da sua cabeça.

EMÍLIO

Não diga asneiras. A Catarina foi uma história do passado, hoje eu amo a Sueli e temos três filhos lindos.

(levanta-se, anda e fica de costas para Eliseu)

Hoje em dia, eu e a Catarina só somos sócios da empresa, nada mais.

ELISEU

Sócios... Isso tudo por culpa do demente do Evandro. Que há cinquenta anos fez o que fez e até hoje não sabemos o motivo.

EMÍLIO

Ora, não fale assim, ele é seu irmão...

Falando nisso, já faz quatro anos que o Evandro não aparece por aqui.

ELISEU

Desde que resolveu morar na cidade grande nem faz questão de nos visitar. Nem dos sobrinhos deve gostar.

EMÍLIO

(vira-se para Eliseu e o encara)

Não diga besteiras. O Evandro é apegado no Elton, sem falar que gosta muito do Luís Carlos e da Lorena. Ele é um homem ocupado, foram anos e anos na administração da empresa.

ELISEU

Quando foi a última vez que ele ligou?

EMÍLIO

Tem uns dois meses. Por isso eu tô até preocupado. Ele tá bem sumido.

ELISEU

Depois ele me aparece com a cara mais deslavada do mundo e pronto. Você esquece da preocupação. Você sempre sendo a pessoa mais compreensível do mundo.

EMÍLIO

Ele é o meu irmão, Eliseu. E você deveria lembrar que é o seu irmão também, ora.

Emílio sai da frente de Eliseu e volta para a sua mesa.

Eliseu sorri debochando e volta a olhar para Emílio.

ELISEU

É... É bom cê me lembrar mesmo, porque se depender de mim, eu esqueço.

Emílio discorda com a cabeça. Eliseu segue sorrindo.

EMÍLIO

Para de falar bobagem e bora voltar ao trabalho.

(P)

Quando o Luís Carlos aparecer por aqui, me avisa. Eu preciso de um relatório da empresa para uma palestra lá no Espírito Santo.

Emílio sai da sala, deixando Eliseu sozinho.

ELISEU

(sussurra)

Tá bom, chefinho!

Eliseu revira os olhos e vai saindo do escritório.

14 EXT. ROSEIRAL DALES - DIA 14

SONOPLASTIA: TAYLOR SWIFT - MEAN.

PLANO AÉREO.

Um grande roseiral, com muitas flores e plantas, alguns trabalhadores por ali, colhendo as mais bonitas rosas de todos os tipos.

Vamos em uma plantação de rosa branca, uma mão pega uma das rosas e coloca em sua cesta.

A mão é de ELTON, um jovem de 25 anos, branco, alto, sem barba, corpo atlético e jovial.

Elton sorri ao olhar para as flores. Ele pega a rosa branca e dá mais um cheiro.

Elton respira fundo e se sente agradecido.

SONOPLASTIA: OFF.

15 INT. ESTUFA DO ROSEIRAL - SALÃO - DIA 15

A imagem abre na cesta com as rosas sendo colocadas em um balcão. Elton observa as rosas e vira-se ao lado contrário do balcão.

ELTON

Eu já falei que cê não precisa se preocupar comigo, Lore. Eu gosto de sentir a natureza das rosas.

LORENA, uma mulher com 40 anos, alta, negra, magra, bem vestida, cabelos cacheados e encorpada. Ela ri da espontaneidade de Elton.

LORENA

Eu sei, meu irmão. Mas que mesmo assim machuca. Eu já tentei lidar com as flores de forma manual como você, mas já me furei tantas vezes que desisti, inclusive, eu e o Luís Carlos, né?! O único que ainda insiste nisso é você.

ELTON

Eu não conseguiria viver dentro de uma sala de escritório por mais de dez horas por dia. Isso não é o que eu queria. Eu gosto é disso aqui. Natureza!!! Sentir o cheiro das pétalas. Eu nasci pra isso, Lorena.

LORENA

Contudo, eu acho um pouco estranho você trabalhar bem no roseiral dos Dales. Quer dizer, em uma parte deles.

ELTON

Na maior parte deles.

LORENA

Isso é verdade. O tio Eliseu detesta, ele acha humilhação você ser empregado dos Dales, sendo que pode criar o próprio roseiral com o dinheiro que temos.

ELTON

(debocha)

Não conte isso a papai, mas o que eu posso fazer se as terras da Dona Catarina são melhores do que as nossas.

Lorena sorri concordando.

ELTON

E outra coisa, eu não me sinto nenhum pouco humilhado. Eu tenho um bom emprego aqui, recebo muito bem e sou tratado bem.

LORENA

Só os herdeiros Dales que são um pouco mal encarados. Já vi aquela tal de Stela mais de uma vez e não fui muito com a cara. Também tem o Rodrigo, eu até acho ele legal, mas fiquei sabendo que ele tem um ódio pela nossa família.

ELTON

Eu só vi ele de longe umas duas vezes, ele nem trabalha por essa área. O negócio dele é lá na empresa, com você e o Luís Carlos.

LORENA

Falando nisso, ele e o Luís Carlos se estranham sempre. Tenho medo de uma hora ou outra os dois se pegarem na porrada.

ELTON

Mas que ideia, hein?! Duas famílias que se odeiam serem sócios de uma empresa.

LORENA

Esse vai ser o nosso carma até o fim, mano. Até o fim.

Em Elton, sorrindo.

16 EXT. CANDARNOS E DALES FLORES - FACHADA - FIM DE TARDE 16

Um prédio com uns dez andares, pessoas entrando e saindo.

Uma grande placa escrito: "CANDARNOS E DALES FLORES".

17 INT. CANDARNOS E DALES FLORES - SALA DE REUNIÃO - CONTÍNUOS 17

Uma sala grande, com uma mesa com mais de vinte lugares, um grande painel na parede, vasos de rosas por todo o lado.

LUÍS CARLOS, com os exatos 39 anos, de terno e gravata, negro, alto, porte atlético e barba por fazer. Ele está de pé e explica algo, enquanto mostra alguns papéis na mesa para outras pessoas com roupas sociais, incluindo homens e mulheres.

LUÍS CARLOS

Essa é a nossa ideia inicial. Logo de cara vamos investir bastante no mercado internacional para o nosso nome ficar conhecido.

ACIONISTA #1

Mas será que temos flores o suficiente pra isso? Porque pelo que fiquei sabendo, vão abrir uma floricultura muito maior, com muitos mais custos.

EMPRESÁRIA #1

E para uma abertura internacional desse porte é necessário toneladas de rosas.

LUÍS CARLOS

Senhores, está tudo planejado e arquitetado. Essa abertura internacional é a nossa melhor chance de todas. Temos flores o suficiente para essa abertura e para outras floriculturas. Sem falar que nossas flores são elogiadas nos países sul-americanos, imagina quando chegar para os norte-americanos? Vai ser um acerto como essa empresa nunca viu.

EMPRESÁRIA #2

Concordo, mas as flores de melhor qualidade, com a melhor terra são as dos Dales. Não dá pra oferecer todos os tipos como se fosse um só.

LUÍS CARLOS

Somos uma sociedade, meus caros. Tudo está alinhado. Além do mais...

Luís Carlos é interrompido com a entrada de RODRIGO.

Ele é um homem maduro, com seus 42 anos, alto, poucos fios brancos e um pouco forte.

Luís Carlos se incomoda com a presença de Rodrigo e o encara.

RODRIGO

O que é que está acontecendo aqui? É algum tipo de reunião secreta?

EMPRESÁRIA #2

É a reunião para discutir a entrada da empresa no mercado internacional, principalmente nos Estados Unidos e Canadá.

Rodrigo se surpreende, mas finge saber.

RODRIGO

Ah... É claro! Internacional!

(P)

Senhores e senhoras, vocês podem me dar licença, eu preciso conversar com o senhor Luís Carlos.

LUÍS CARLOS

Melhor a gente ir para a minha sala, assim conversamos e depois voltamos com a reunião...

RODRIGO

(por cima)

Não tem mais reunião, Luís Carlos.

(T)

Eu peço que todos me deem licença.

Os empresários se levantam e começam a sair da sala de reunião.

Luís Carlos fica inconformado ao ver que todos obedeceram Rodrigo.

Com a sala vazia, Rodrigo fecha a porta e encara Luís Carlos.

CLOSES ALTERNADOS.

LUÍS CARLOS

(sério)

Que brincadeira é essa? Qual foi a sua?

RODRIGO

Eu que te pergunto, cara. Que palhaçada é essa de marcar reunião sem eu saber? E pelo visto, nem a Lorena foi comunicada, já que ela também não esteve presente. O que você tá pretendendo?

LUÍS CARLOS

Isso é uma reunião da presidência, coisa que a Lorena não faz parte...

RODRIGO

(eleva o tom)

Mas eu sou da presidência, pombas! Por que diabos eu não fui convocado?

LUÍS CARLOS

(procurando uma saída)

Eu... Eu devo ter esquecido... Ou a secretária, ela...

RODRIGO

Para com isso, Luís. Eu sei muito bem das suas jogadas. Você quis me tirar fora da reunião para poder arquitetar tudo sozinho. Não testa a minha inteligência que você vai se estrepar.

LUÍS CARLOS

(debocha)

Não tenho nada para testar em você.

RODRIGO

Pois muito bem... Todas as pautas e qualquer coisa que foi decidida nessa reunião patética está anulada. Vamos marcar outra reunião em que eu esteja presente.

LUÍS CARLOS

(eleva o tom)

Você não pode passar por cima do meu trabalho desse jeito.

RODRIGO

Você passou por cima do meu primeiro. Aqui nada é decidido sozinho. Essa empresa é uma sociedade da minha família com a dos Candarnos, que pelo visto, depende mais da gente do que a gente depende de vocês.

Rodrigo abre a porta e sai.

Luís Carlos se enfurece e joga os papéis no chão.

Nele, irritado.

18 EXT. FAZENDA DALES - SEDE - FIM DE TARDE 18

Um carro se aproxima da sede da fazenda.

Ivanilda observa tudo da varanda e entra dentro da sede.

— CARRO DE FERNANDES —

No carro estão STELA, mulher com seus 38 anos, alta, branca, cabelos pretos e magra.

Junto a ela, está FERNANDES, um homem com pouco mais de 40 anos, forte, branco, cabelos pretos.

Os dois olham para a sede da fazenda.

Fernandes está inconformado e Stela decidida.

FERNANDES

É isso mesmo que você quer fazer?

STELA

Não vejo outra maneira. Na fazenda da minha mãe não falta nada pra gente.

FERNANDES

Podemos ir para um hotel ou pensão.

STELA

Do que a fazenda da minha mãe? Nunca! Não teríamos a mesma privacidade em uma pensão ou hotel.

FERNANDES

E você acha que aqui vai ter privacidade? Eu morando com a sogra?

STELA

A mamãe sempre te respeitou e respeitou nossa relação.

(P)

Por favor, Fernandes! Nossa casa deu uma infiltração e vai demorar meses para ajeitar tudo. Passar um tempo na fazenda não é tão ruim. Além do mais, a cidade fica a cinco quilômetros daqui, temos carro.

FERNANDES

(conformado)

Tudo bem, eu vou aceitar isso por ser uma emergência, mais nada.

Stela beija na boca de Fernandes e sorri para ele.

STELA

Que bom que você entendeu, meu amor.

Fernandes dá um sorriso amarelo.

19 INT. FAZENDA DALES - SEDE - SALA DE ESTAR - DIA 19

Abre no abraço que Stela dá em Catarina.

O abraço é desfeito.

CATARINA

O que está acontecendo, filha?

STELA

Eu não sei como começar, minha mãe. É que... Eu preciso da sua ajuda, mais do que nunca.

CATARINA

Minha nossa senhora, Stela.

Em Catarina, apreensiva.

20 INT. CASA DE DANIEL - SALA DE ESTAR - DIA 20

A casa está bagunçada, roupas jogadas, copos e pratos em cima dos móveis, a televisão ligada em alguma playlist do Spotify.

É uma sala de estar bem modesta, com duas janelas fechadas e uma pintura clara. Um par de sofá, além de um tapete. Temos também três portas que dão para outros cômodos.

Enquanto observamos essa bagunça com riqueza de detalhes, a campainha toca.

DANIEL (O.S)

Já vai!!!

A campainha toca mais duas vezes em sequência.

Daniel vem do interior da casa recolhendo algumas coisas.

DANIEL

CALMA, PÔ!

Completamente desnorteado, Daniel vai recolhendo as coisas que estão na sala e segue apreensivo em deixar tudo limpo.

A campainha segue tocando mais uma vez.

DANIEL

Aí, meu Deus! Que galera apressada!

Com algumas roupas em mãos, Daniel joga tudo em um balde apropriado para isso, que está próximo ao sofá, e vai em direção à porta.

Daniel abre a porta sem paciência, mas se surpreende ao ver que se trata de Dante.

Daniel só exibe a reação de surpresa, enquanto Dante lhe dá um sorriso matador.

DANIEL

(surpreso)

Dan-Dan-Dante? Como...

DANTE

Vai me deixar esperando aqui na porta?

Os dois trocam sorrisos empolgantes.

CLOSES ALTERNADOS.

Neles.

ABERTURA

21 INT. CASA DE DANIEL - SALA DE ESTAR - CONTÍNUOS 21

Continuação imediata da última cena.

A imagem abre no abraço que Dante e Daniel estão dando.

O abraço é desfeito e os dois voltam a se olhar com os seus respectivos sorrisos no rosto.

DANIEL

(radiante)

Eu mal podia imaginar que você estivesse aqui.

DANTE

(otimista)

Bem, você tinha me dito que...

(coloca a sua mochila em cima do sofá)

Eu poderia te visitar nessa cidade. Então, eu estava por perto e resolvi te ver. Claro, se eu não te incomodar.

DANIEL

Imagina, Dante! Você nunca me incomodaria. Quando você apareceu na minha vida naquela estrada, eu... Você foi tão necessário.

(percebe a casa bagunçada, se envergonha)

Você só vai me desculpar pela bagunça. Hoje é segunda-feira, sabe como é, né?

Os dois trocam risadas.

DANTE

Eu devia ter avisado. Minha mãe já me disse que chegar de surpresa não é muito educado.

DANIEL

Eu não me importo, seu bobo. Qualquer coisa que venha de você, eu simplesmente adoro. Afinal, o jeito como a gente se conheceu também foi uma surpresa.

DANTE

Isso é uma verdade.

DANIEL

Eu vou te instalar direitinho. Eu aluguei essa casa por um preço baratinho, tem um quarto sobrando.

(percebe a única mochila de Dante)

Mas... Você só trouxe uma mochila? Ah... Pensei que fosse ficar mais tempo comigo.

DANTE

Essa está sendo minha estratégia. Tô indo com poucas coisas nessa minha viagem, quando eu acumulo roupas e outros objetos, eu mando tudo para a minha casa lá em São Paulo. Se eu precisar de minhas roupas, eu compro.

DANIEL

(ironizando)

Ah, é claro... Você é rico! Como eu poderia me esquecer disso?!

DANTE

Ah... Vai tirando uma com a minha cara, vai!!!

Os dois trocam sorrisos.

Em Dante, otimista.

22 EXT. CASARÃO CANDARNOS - FACHADA - DIA 22

Tomada rápida da fachada do casarão.

Temos uns dois belos carros estacionados na frente e um jardim esplêndido que fica mais altivo com o brilho do sol.

23 INT. CASARÃO CANDARNOS - SALA DE ESTAR - DIA 23

Um pouco de whisky é colocado em um copo e em seguida gelos.

Luís Carlos pega o copo e toma com muita sede ao pote.

Eliseu e Emílio o observam.

LUÍS CARLOS

(aborrecido)

Eu não aguento mais aquele Rodrigo se metendo no meu trabalho. É sempre isso. É sempre ele querendo falar mais alto, dar a última palavra. Assim não tem como trabalhar, meu pai.

EMÍLIO

Você tem que entender que ele tem o mesmo cargo que o seu, Luís Carlos. Ambos dividem a presidência da empresa. Não se esqueça que somos sócios.

LUÍS CARLOS

Eles não têm tanto poder assim. Temos mais ações e é isso que conta.

ELISEU

Antes fosse. O que o desgraçado do seu tio, o Evandro, o que ele fez deu mais poder para aquela gente do que se imagina.

EMÍLIO

(repreende Eliseu)

Você precisa mesmo ofender todas as pessoas que você cita?

ELISEU

Ora, meu irmão. Se são meu impasse, elogiar com flores que eu não irei.

Luís Carlos senta no sofá, respira fundo e coloca a mão na cabeça.

Ele encara o pai e o tio.

LUÍS CARLOS

Eu só sei que eu não vou mais aturar aquele merda me dando ordens. Não vou!

Na determinação de Luís Carlos.

Emílio e Eliseu se olham, preocupados.

24 INT. FAZENDA DALES - SALA DE ESTAR - DIA 24

Stela está sentada em uma das poltronas da sala.

Catarina está sentada em um sofá e está próxima de sua filha.

Stela está de cabeça baixa, se sentindo envergonhada.

CATARINA

Então foi isso que aconteceu?

STELA

Sim, mamãe.

(levanta a cabeça e encara a mãe)

Você foi a minha única solução. Por favor mãe, eu...

CATARINA

E você veio pedir pra ficar aqui junto com o seu marido?

STELA

Eu sei que parece um absurdo, ainda mais sabendo do clima entre vocês dois, mas...

CATARINA

Problema nenhum vai me fazer negar alguma ajuda para a minha filha.

(pega na mão de Stela)

Oh, Stela! O que você achou? Que eu te negaria abrigo por problemas com o Fernandes? Isso jamais, meu amor. Vocês são a minha família e nenhum problema do passado afetará isso.

O rosto de Stela se enche de alegria e abraça a mãe com uma força que só a maternidade pode proporcionar.

STELA

(emocionada)

Oh, minha mãe! Eu nem sei como agradecer.

CATARINA

Não tem o que agradecer.

TEMPO.

O abraço é desfeito e Stela se recompõe da emoção.

STELA

Eu vou chamar o Fernandes, ele tá lá esperando no carro.

CATARINA

Vai lá, eu vou pedir para a Ivanilda preparar o seu antigo quarto para poder receber vocês.

Stela sai sorridente e confiante.

Catarina exibe um sorriso nostálgico.

25 EXT. PÉTALAS - SP. - DIA 25

O dia começa a se despedir em Pétalas, os estabelecimentos começam a fechar e a noite chega.

26 EXT. CASARÃO CANDARNOS - FACHADA - NOITE 26

Tomada rápida.

27 INT. CASARÃO CANDARNOS - QUARTO DE LORENA - NOITE 27

O quarto de Lorena é grande e bem decorado, seguindo o bom gosto desse mulherão. Com alguns porta-retratos, uma porta para o closet e outra para o banheiro.

Lorena sai do banheiro e vai em frente ao espelho. Ela coloca os seus brincos. Lorena está bem vestida para a ocasião, um vestido simples, mas chique.

Batidas na porta.

LORENA

Pode entrar!

Sasha, uma mulher com 40 anos, baixa, branca, cabelos longos e negros, porém, é uma mulher sem demonstrar muita sexualidade e tímida. Ela abre a porta do quarto de Lorena.

SASHA

Sou eu, Lorena!

LORENA

(vê Sasha no reflexo do espelho)

Oi, Sasha! Tá precisando de alguma coisa?

SASHA

Eu queria saber se você tem um batom de uma cor mais clara. Eu só trouxe vermelho.

LORENA

(estranha e vira-se para Sasha)

E qual que é o problema do batom vermelho?

SASHA

(tímida)

Bem... Eu tinha comprado uma coleção quando eu fui na cidade vizinha, eu tava apaixonada, mas daí eu fui usar hoje e o Luís Carlos não gostou muito, disse que eu estava indecente.

LORENA

(revira os olhos)

Mas é uma palhaçada. Ele tá achando que a gente tá em que ano? Pelo amor de Deus, mulher! Eu já te falei sobre essas coisas do meu irmão.

SASHA

É que eu acho melhor não contrariar ele. Luís já tá nervoso com o dia na empresa.

LORENA

Sei... Bem, tem alguns lá no meu banheiro, pode pegar o que quiser.

SASHA

Obrigada, cunhada!

Sasha vai entrando no banheiro de Lorena. Lorena volta a se olhar no espelho e volta a reparar na sua roupa.

LORENA

E os meninos? A Rosana e o Emílinho não vêm para o jantar?

SASHA (O.S)

Eles vêm mais tarde. O Emílio Jr. está no curso e a Rosana vem com ele. Mas quer saber de uma? Eu venho ter uma preocupação com o Emílio.

LORENA

Mas por quê?

Sasha retorna para o quarto e já com uma nova cor de batom.

SASHA

Ele anda reclamando de tudo, de todos. Sem falar que vive trancado naquele quarto.

LORENA

Deve ser coisa da idade. Ele tá no fim da adolescência e as coisas são assim mesmo. Logo passa.

SASHA

Que a nossa senhora te escute, Lorena. Eu não gosto quando ele e o Luís Carlos discutem. Filho tem que honrar pai e mãe, não tem que agir do contrário.

LORENA

Vai ver ele tem os motivos pra começar uma discussão. Ou não tem?

Em Sasha.

28 EXT. CASA DE LUÍS CARLOS E SASHA - JARDIM - NOITE 28

SONOPLASTIA: BILLIE EILISH - LOST CAUSE.

A imagem vai abrindo na pequena plantação que existe ali.

Vem chegando Emílio Jr., um rapaz com 17 anos, baixo, forte, negro e cabelos crespos.

Ele olha pelos cantos, sente-se seguro para fazer o que pretende fazer e senta em um canto perto das flores.

Então, ele pega no seu bolso direito da calça um pacote plástico e transparente em que o conteúdo é maconha.

No bolso esquerdo da calça, ele retira uma seda ideal para formar um baseado.

DETALHE: As mãos de Emílio preenchem a seda com baseado. Em seguida, ele enrola o baseado e para finalizar, ele passa a língua na parte que ficou sobrando. O baseado está pronto.

VOLTA À CENA.

Emílio Jr. encara o baseado com ansiedade e curiosidade. Ele sorri e fica atento.

Em seguida, ele coloca a sua mão no bolso da calça e retira um isqueiro.

O jovem acende o baseado e joga o isqueiro em qualquer canto.

Com o baseado aceso, ele coloca na boca e traga ele perfeitamente.

SONOPLASTIA: CESSA.

Na tranquilidade de Emílio Jr.

O jovem não percebe, mas Rosana, uma jovem, com 23 anos, alta, negra e com cabelos cacheados, se aproxima dele rapidamente.

ROSANA

EU SABIAAA!!!

Rosana assusta Emílio Jr., que acaba derrubando o baseado no chão.

EMÍLIO JR.

(assustado)

Pô, Rosana!

(se levanta do chão e encara Rosana)

Que susto, porra!

ROSANA

Eu sabia que você tava por aqui e provavelmente aprontando alguma coisa.

Rosana percebe o cheiro da maconha no ar.

Emílio Jr. fica inseguro.

ROSANA

Não é possível! Cê tá usando essa merda de novo, Emílio?

EMÍLIO JR.

(tenso)

Você me deixe, viu?! Me deixe!

Emílio Jr. vai até o chão e procura pelo seu baseado que deixou cair.

Rosana exala preocupação com o irmão.

ROSANA

Eu fico preocupada, Emílio. A gente já deveria tá indo pra casa do vovô numa hora dessas. Hoje tem um jantar especial com a família toda. Você já esqueceu?

EMÍLIO JR.

(ao chão, procurando)

Jantares, reuniões, encontros... Não sei pra que tudo isso. É tudo uma grande chatice. Isso só serve pro papai pagar de bom moço e fingir que tem uma boa família. Ele adora fingir que é um exemplo.

(encontra o baseado e o pega)

E isso tem me irritado de uma forma que cê não faz ideia, mana.

Após encontrar o baseado, Emílio Jr. se levanta do chão, coloca o baseado apagado no bolso da sua calça e volta a encarar Rosana.

ROSANA

Escuta, eu sei que você tem os seus problemas com o papai e tudo mais, mas isso é um jantar em família. É mais pelo vovô do que por qualquer outra pessoa.

Emílio Jr. pensa, respira fundo e concorda com a cabeça para Rosana.

EMÍLIO JR.

Tudo bem... Eu vou nesse jantar, mas é pelo vovô.

ROSANA

(esperançosa)

Graças à Deus! Agora vai tomar um banho, vai. Se você chegar lá com esse cheiro, é capaz do papai dar cria lá mesmo.

Emílio Jr. sorri e sai andando em direção ao interior da casa.

Rosana o observa com uma certa preocupação.

29 EXT. FAZENDA DALES - NOITE 29

Panorama de toda a fazenda.

30 INT. FAZENDA DALES - SEDE - QUARTO DE STELA E FERNANDES - NOITE 30

Stela está sentada na cama e penteando seus longos cabelos.

Ela observa Fernandes botando sua camisa em frente ao espelho.

O espelho emite o reflexo de Stela, enquanto Fernandes está sério na sua arrumação.

STELA

Você podia pelo menos desfazer essa cara, né Fernandes? Afinal, a casa da minha mãe não é nenhum fim do mundo.

FERNANDES

(resmungando)

Claro que não, querida. São só cinco quilômetros da cidade. Vou ter que gastar mais com gasolina do que eu pensava. Esqueceu que eu sou o delegado dessa cidade? Meu trabalho é lá, quem cuida de plantinhas são vocês, não eu.

STELA

Meu amor, eu posso te ajudar com a gasolina, não é problema nenhum pra mim.

FERNANDES

Chega, Stela!

(T)

A coisa que eu mais odeio é ter que depender de dinheiro de mulher.

Após a tensão se instalar no ar, Stela dá um tempo.

Ela se levanta e vai até Fernandes e o toca.

STELA

Desculpe... Eu não queria dizer nada que te ofendesse.

(Fernandes vira-se para ela)

Me perdoe, meu amor.

FERNANDES

(paciente)

Tudo bem... Estamos aqui na fazenda da sua mãe, mas é só um período. Bem... É como você mesmo disse, aqui não é tão ruim e nem tão longe da cidade, não precisamos brigar por isso.

Stela sorri e beija Fernandes. Ele responde o beijo.

TEMPO.

O beijo é desfeito.

FERNANDES

É melhor a gente ir jantar. A sua mãe aproveitou que estamos aqui e resolveu reunir a família toda.

STELA

É claro!

No otimismo de Stela.

31 INT. CASA DE DANIEL - COZINHA - NOITE 31

Abrimos em Daniel colocando uma travessa de lasanha em cima da mesa. A lasanha parece estar saborosa.

Falando em coisas deliciosas, eis que surge Dante, com cabelos molhados, com uma camiseta e um short bem curto que aparentemente atrai os olhares de Daniel.

Dante observa a mesa posta por Daniel e se surpreende.

DANTE

Não sabia que você mandava bem na cozinha. O cheiro chegou lá em cima.

DANIEL

Eu que moro sozinho sempre tenho que dar meu jeito. Pode sentar, já vou te servir.

Dante senta-se em uma das cadeiras, pega o seu prato e começa a se servir.

DANTE

Não precisa se preocupar em me servir. Você ficou ocupado o dia inteiro. Senta aí, vamos comer juntos.

DANIEL

Você é tão simpático. Me sinto acolhido.

Os dois dão risadas tímidas. Daniel senta-se na mesa e troca olhares com Dante.

Os dois começam a comer e se deliciar com o prato feito por Daniel.

CORTE DESCONTÍNUO.

Após comerem, os dois já estão satisfeitos. Dante toma compostura na mesa e encara Daniel.

DANTE

Agora que a gente já comeu, vamos conversar.

(P)

Quando a gente se conheceu naquela estrada, a gente se conectou na hora, mas você me contou uma coisa importante que eu não consegui esquecer.

DANIEL

(sério)

Sobre a vingança.

DANTE

Isso... A vingança. Me conta a real dessa história. Quem são as pessoas que te prejudicaram e você quer se vingar?

DANIEL

São duas famílias importantes dessa cidade: os Dales e os Candarnos.

São eles, Dante.

Em Daniel.

32 INT. CASARÃO CANDARNOS - SALA DE ESTAR - NOITE 32

Os membros do "clã" Candarnos estão reunidos na sala de estar e espalhados em cada canto.

Com conversas paralelas, Elton e Lorena estão juntos conversando. Eliseu está com Emílio, Luís Carlos e Sueli — mulher com 70 anos, baixa, negra, cabelos crespos — alguns empregados por ali.

— SALA DE JANTAR —

Com uma mesa belíssima, Sasha observa toda a organização ao lado dos filhos, Rosana e Emílio Jr.

SASHA

Que demora foi essa de vocês? Todo mundo aqui esperando! Essa não foi a educação que eu e seu pai demos a vocês.

EMÍLIO JR.

(ironizando)

Se a gente fosse fazer o que o Senhor Luís Carlos nos ensinou, nós estaríamos aqui antes de todo mundo e fingindo que se importa.

SASHA

(repreende)

Emílio Jr., pelo amor de Deus, não venha me criar uma situação aqui. A família está toda reunida.

ROSANA

Mãe, se acalma também, é só um jantar em família. Não vamos conhecer a rainha.

SASHA

Rosana do céu... Olha, vamos indo e por favor, não me envergonhe.

— SALA DE ESTAR —

De volta à sala de estar, Sasha com seus filhos aparecem e assim a família fica toda reunida.

LUÍS CARLOS

(impaciente)

Finalmente chegaram! Que demora foi essa?

SASHA

Meu amor, é que...

SUELI

(tentando apaziguar)

Não precisa se explicar, não tá na cara, gente? Meus netos são jovens e sabe como é jovem, hoje em dia se desesperam até se um fio de cabelo não estiver no lugar.

Risadas.

ELTON

Importante é que todo mundo está aqui. Fazia um tempo que a família não se reunia desse jeito.

EMÍLIO

Elton tem razão. Os Candarnos não se reuniam desse jeito faz muito tempo, mas ainda está faltando o Evandro.

Emílio Jr. sussurra no ouvido de Rosana.

EMÍLIO JR.

(sussurra)

Pelo visto, ele foi o único sensato da família.

Rosana dá uma risada.

EMÍLIO

Eu tô muito feliz de ter essa família linda, enorme e realizada. Esse foi o meu maior sonho de vida e não tenho arrependimentos das escolhas que eu fiz.

ROSANA

Qual foi, vô?! Tá parecendo papo de despedida, sai dessa!

A família acha graça.

EMÍLIO

Tá certa, minha neta!

(P)

Mas às vezes, é bom lembrar dessa família e não é sempre que tenho todos aqui.

Emílio levanta um brinde para todos.

EMÍLIO

Aos Candarnos!

Todos levantam suas taças.

A felicidade é contagiante.

Neles.

33 EXT. FAZENDA DALES - SEDE - NOITE 33

Tomada rápida da sede da fazenda.

34 INT. FAZENDA DALES - SEDE - SALA DE JANTAR - NOITE 34

Na mesa que está bem posta, todos estão reunidos por ali.

Catarina na cabeceira da mesa, enquanto o restante da família compõe o resto da mesa, incluindo Ivanilda.

Além dos filhos que já conhecemos e o genro Fernandes, também temos Vanda, uma mulher de 34 anos, alta, branca, cabelos pretos e lisos.

Todos estão arrumados para um jantar simples.

CATARINA

Em breve eu já pretendia marcar um jantar para reunir a família, mas como a Stela e o Fernandes se mudaram pra cá, eu achei a oportunidade perfeita. Não queria perder mais tempo.

RODRIGO

Também achei, minha mãe. É sempre bom se reunir, na maioria das vezes estamos trabalhando, fica complicado.

VANDA

(à Fernandes)

O que aconteceu com a casa de vocês?

FERNANDES

Uma infiltração em todos os cômodos, vai levar alguns meses até tudo ficar pronto.

VANDA

Corajoso, hein?! Voltar para a casa da sogra!

CATARINA

(à Fernandes)

Vocês são muito bem-vindos aqui. Fiquem o tempo que precisarem.

FERNANDES

Obrigado, Dona Catarina!

CATARINA

Eu queria fazer um brinde por essa reunião familiar. Eu fico feliz que mesmo após a morte do Arthur, todos nós conseguimos nos reunir.

VANDA

Todos mais ou menos, não é, Dona Catarina?

Catarina fica sem entender.

Rodrigo encara Vanda e um clima se instala na sala de jantar.

CATARINA

Do que cê tá falando, Vanda? Pode ser mais clara?

VANDA

Da tal da Venância!

TENSÃO.

Catarina fecha a cara para Vanda.

VANDA

Aquela que pegou as coisas e sumiu misteriosamente. Só faltou ela para a família estar completa.

CATARINA

Eu não admito que nem mesmo sendo da família toque no nome da minha filha, mas para a sua informação, ela seguiu a vida dela em outro lugar.

VANDA

Pra longe da senhora. Por que será?

CATARINA

Vanda, você tá passando do ponto. Eu lhe tenho o maior respeito do mundo por ser casada com o meu filho, mas isso não lhe dá o direito de se meter na minha vida.

VANDA

Calma, eu só perguntei, porque é estranho uma filha ir embora com vinte e cinco anos e mais de vinte anos depois não dar notícias, nem se tá viva ou se tá morta.

CATARINA

(nervosa)

Ela foi embora porque ela quis, ela fez as escolhas dela e ponto final.

Pela última vez, não se meta nessa história, eu não gostaria de lhe faltar com o respeito.

(T)

Olha, eu acho que eu perdi a fome, mas podem ficar à vontade, a casa é de vocês.

STELA

Mãe, por favor!!!

Catarina se levanta da mesa sem olhar para trás e vai entrando no interior da sede da fazenda.

Rodrigo encara Vanda com desaprovação.

35 INT. CASA DE DANIEL - SALA DE ESTAR - NOITE 35

Daniel está em pé e no meio da sala. Dante está de costas para Daniel. Daniel fica ansioso. Dante vira-se e encara Daniel.

DANTE

Essa história que você me contou é muito doida e surreal. Essas duas famílias se uniram para tirar tudo da sua, isso antes mesmo de você nascer. Que loucura, Dani?!

DANIEL

(mentindo)

É... Pra você ver como são as coisas. Agora que você já sabe o motivo de eu tá vivendo nessa cidade. O que você pretende fazer?

DANTE

Tá bom... Eu vou te ajudar nessa parada!

Daniel fica radiante de felicidade e corre para abraçar Dante. No abraço dos dois, surge um clima.

Aos poucos, Daniel vai se afastando de Dante e o encarando bem de perto. Dante vai tirando sua mão da cintura de Daniel.

TEMPO.

DANIEL

Desculpa... Eu acho que me empolguei.

DANTE

Tudo bem... Acontece...

(P)

Mas olha só, eu não quero saber de ferir ninguém. Se o lance for justiça, eu tô com você, mas se passar disso, eu não posso mais fazer parte.

DANIEL

Claro, Dante. Eu só quero o que é meu.

Na timidez de Dante.

36 EXT. CASARÃO CANDARNOS - FACHADA - NOITE 36

SONOPLASTIA: MILEY CYRUS - ANGELS LIKE YOU.

SLOW MOTION: A família Candarnos está comemorando a reunião. São muitos rostos felizes, muitas risadas e apesar dos conflitos, essa família se mostra unida e um pelo outro.

VOLTA À CENA.

Emílio vira um copo d’água. Sueli vem chegando por trás de Emílio, ela está séria e com um ar triste.

SUELI

Emílio?!

Emílio vira-se e percebe o rosto de Sueli.

EMÍLIO

O que aconteceu, Sueli?

SUELI

(abatida)

Ligaram lá do Rio de Janeiro.

EMÍLIO

Notícias do meu irmão? O que foi?

Em Emílio.

37 INT. FAZENDA DALES - QUARTO DE CATARINA - NOITE 37

A SONOPLASTIA SEGUE.

Catarina abre a porta do seu quarto e vê Ivanilda com o telefone em mãos.

IVANILDA

É urgente! É para senhora, Dona Catarina!

CATARINA

(estranha)

Pra mim? Me dê aqui!

Catarina pega o telefone e coloca no seu ouvido.

CATARINA

(tel.)

Alô?!

TEMPO.

CLOSE-UP.

Uma lágrima cai do olho esquerdo de Catarina.

Nela.

CORTA IMEDIATAMENTE PARA

38 INT. CASARÃO CANDARNOS - SALA DE ESTAR - NOITE 38

No silêncio de todos.

Sueli segue encarando Emílio e ele sem acreditar no que a esposa diz.

EMÍLIO

Ele... Ele morreu? O meu irmão Evandro... Ele morreu?

Todos se chocam com a notícia.

Em Emílio, totalmente incrédulo.

SONOPLASTIA: OFF.

FIM DO EPISÓDIO.

FADE OUT.

FADE IN.

39 EXT. RIO DE JANEIRO - RJ. CASA DE PRAIA - VARANDA - DIA (CENA PÓS-CRÉDITO) 39

A imagem abre em um dia ensolarado.

PLANO GERAL da varanda de uma casa de praia.

LETREIRO: "RIO DE JANEIRO - RJ, DOIS ANOS ANTES".

Na varanda, encontramos EVANDRO, um homem com 70 anos, alto, um pouco barrigudo, branco e forte, com seus cabelos brancos e confiança no seu rosto.

Ele coloca a mão na parede e observa aquela casa com orgulho.

Logo chega uma outra mão, uma mão feminina e coloca a mão sob a mão dele.

Evandro sorri, pois já percebeu de quem se trata.

Evandro olha e vê o que também vemos: é Catarina.

EVANDRO

Que bom que você veio me encontrar. Já estava morrendo de saudades.

CATARINA

E você acha que eu negaria algum convite seu, meu amigo?

EVANDRO

Fiquei com medo, quase todo mundo me abandonou.

CATARINA

Jamais passou pela minha cabeça fazer uma idiotice dessas.

(P)

Mas você ainda tem a sua família.

EVANDRO

Eles me abandonariam quando soubessem. Não restaria um do meu lado.

CATARINA

Não fale assim. Você é a pessoa mais incrível que eu conheço.

EVANDRO

Desde quando eu fiz trinta anos e passei a morar aqui, eu só posso contar inteiramente com você, Catarina. Com vinte anos eu me descobri, com trinta anos eu me assumi e com cinquenta anos eu descobri que fui contaminado com o maldito vírus HIV. Mesmo assim, você nunca me abandonou.

Lágrimas caem dos olhos de Evandro e Catarina se emociona.

CATARINA

Não se abandona um amigo como você. Não importa como você é. Você foi a pessoa que mais me ensinou o que é amor, o que é a vida, meu amigo.

Não importa o que você é, não importa o que você tenha... Eu sempre estarei do seu lado, porque eu te amo e nada vai mudar isso.

Na emoção dos dois amigos.

FADE OUT.

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